1

“O Café Troika” (Parte II) de Filipa Ribeiro da Cruz

(…)

– Um copo de leite? – o sujeito do café troika pensou por um segundo. – Tem a certeza que tem dinheiro para o pagar?

– Ora, julgo que sim. Venha ele, homem, que estou cheio de sede!

– Terei de fazer um balanço sobre a sua situação económica e social. – anunciou, sem qualquer vestígio de incertezas.

– Como assim? É apenas um copo de leite! Você quer ir à falência?

– Falência? – o proprietário barbudo deu uma gargalhada. – Olhe, à falência foi Portugal, que gastou o que não tinha, e agora quis beber leite, ficou feliz, mas mais pobre. Disso, meu caro amigo, disso eu não tenho qualquer culpa.

– Mas afinal quanto custa o raio do copo de leite?

– Nem queira saber. – o troikiano fez uma pausa, suspirou e olhou-me com gozo. – sete mil milhões.

Nós em todo o meu corpo comprimiram-se e tornaram-se acérrimos. Caro leitor, caro leitor, caro leitor, dá para acreditar? Que espécie de leite será este?

Estrangeirada, dizem muitos, é estrangeirada rica à custa dos pais da lusofonia. Se precisamos de leite? Porventura a minha resposta é positiva, uma vez que a nossa dívida e o nosso talento se afundam no mesmo barco. Depois de racionalizar sobre tal revelação, tomei um novo diálogo:

 – Quem é você, homem do café troika, que cobra um bem essencial a preços impensáveis? Que raio de leite é esse que você vende a meia dúzia de gatos-pingados? Julgo-o culpado pelo crime de raptar vacas sagradas para as fazer mungir leite do aroma do ouro, ou da prata. Porém, admito-o enquanto cinzas caídas sob Lisboa: polui, cobra, é apanhado pelas pás dos varredores de ruas, é banido da nossa terra.

– Daqui não vou sair, tenho emprego e poucas folgas. Se raptar vacas sagradas é crime nesta terra no rabo europeu, então vivo na acalmia da minha riqueza, pois sei que aqui sou necessário. Quanto ao leite, esse é a fórmula essencial para revitalizar esta economia…

Portugal teve de lá ir beber o leite por necessidade. Enfim, agora descortino a razão do seu ato. Caiu na doença, na outrora luxúria vívida, bruto carro e bruto consumo, pouca escola e poucas contas, pelo que quem lhes valeu por último foi um estrangeiro de nome suspeito. Mas, caro leitor, ó caro leitor, agora chamo-o à razão: ouça-me.

            – Então parece-me que um dia voltará às suas origens, sejam elas quais forem. Para mim, o seu leite não é leite. O leite que é leite, é português.

E deste modo saí dali, pouco enraivecido, mais convicto das minhas frases do que zangado por Portugal ter caído na conversa do café troika.

***

Caro leitor, passaram-se dias após o sucedido. A troika está fechada. Não se sabe bem porquê, não há rumores de falência, mas também ninguém se atreve a tecer conjeturas. A minha vizinha já só estende a roupa com um sorriso satisfeito, não fala; parece que é muda.

Lisboa está melhor assim. Irei sentir falta da minha cidade. Sim, caro leitor, estará a perguntar se me vou embora. E digo-lhe que sim.

Para onde vou? Vou beber leite aos Açores, tornar-me pastor e produzir leite para alimentar a minha gente. Sou, assim, um jovem velho pastor que tem reflexo nas palavras, que baniu a ideia de que o leite se paga, que tem um preço que, esse sim, arrepia o rio, as mesas, a minha pele, a sua, a do comum português.

O que é o leite? O leite pode-se beber num trago ou dois, sentindo-lhe o sabor macio, deleitando a garganta rouca do trabalho, o estômago arranhado pela fome de alguns dias menos bons. Ora, o leite é inspirador, é a minha inspiração.

Bebê-lo fresco ou quente, arrepia-me a pele de tão bom ser, de tão rico ser e de não cobrar nada por isso, possuindo uma modéstia digna de louvor. Leite que é leite é português, já o disse linhas antes. E agora estas já estão direitas.

Precisava de reencontrar o meu caminho. Sento-me ao pé das minhas vacas, olho o mar, lembro Lisboa com saudade. Porém, sei que ao ser pastor cultivo a felicidade do meu país. E é essa a minha missão. É essa a missão do leite de nome português. As troikas vendem leite que não nos trás felicidade, que Portugal bebeu e que, por conseguinte, o deixou numa melancolia, com as calças apertadinhas à cintura, rotas nos bolsos, justas nas canelas. É preciso mostrar a Portugal que, enquanto bom camarada, o leite português é o único cujo poder chega ao corpo para dar pujança. Leite que é leite bebe-se até sem vontade, lambendo os bigodes e rindo num estoiro de satisfação.

by Filipa Ribeiro da Cruz

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s