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“O café troika” (Parte I) de Filipa Ribeiro da Cruz

“Aqui fica um dos meus escritos. Este texto, “O café Troika”, foi finalista num concurso literário da Fenalac, a nível nacional, cujo tema era a importância do leite. Espero que gostem da minha escrita e que esta vos reforce a vontade de ler algo mais da minha autoria! Obrigada, Filipa Ribeiro da Cruz”

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Alguém me disse que Portugal pediu um copo de leite num café chamado troika. Já não sei quem, sei apenas que foi alguém muito bem informado, cujo pensamento se concentra no que se faz fora das suas paredes. Espera. Já sei! Foi a minha vizinha. Ou talvez alguém da televisão. Que confusão que para aqui vai. Com todo este paleio mal me apresentei. Olá, sou português, pelo menos assim mo dizem, e vagueio pelas ruas de Lisboa, à espera de inspiração. Se sou poeta? Não me chamo tal coisa, porque ser artista das palavras é ser tão banal quanto único, e é tarefa árdua para a juventude de agora, se bem que a juventude de antes não era muito diferente. Sou banal, eis que sou banalíssimo. Todavia, sou eu. E se sou poeta então que seja, mas não me peçam para escrever sobre isso.

            Escrevo estas linhas tortas numa folha de papel banal como eu, imerso em mim e na luz que vislumbra sobre o Tejo. Uns resquícios de humanidade passam por mim, ora torpes, ora direitos, ora abúlicos, ora harmoniosos. Ouvem-se os automóveis em carreiros a buzinar sem dó. O rio ondula e ondula como quem passeia na memória e vai-se arrepiando ao mesmo tempo. E esta mesa abana como quem tem frio. A doença económica já afetou as mesas deste café, bem sei. É que sou jovem mas sou velho, e já aqui tomo a bica há bastante tempo.

            Sou jovem em termos da minha idade física; sou velho na alma. Mas não me interpretem do modo que sei que me vão interpretar. Ora, a velhice é saber mais. E eu sei mais do que o comum aluno, com uma sacola moderna ao ombro. Sou aluno da vida e, porém, neste momento já me julgo professor de alguém mais. Mas mesmo assim sou banal. E sou banal porque sou Homem. E se sou Homem tenho dores, maleitas, amores e desamores, sentindo a chuva pingando-me a cara suja da desilusão, ou possuo uma sensação agridoce de tempos em tempos.

            O dia passa e eu passo por ele algo incólume. Entretanto, Portugal está acolá a beber o seu leite; é um velhinho disfarçado de bebé. Por que razão o bebe? Isto anda-me a intrigar. Desconheço quem é o proprietário desse café. Troika, que raio de nome. Tem um estranho balbuciar, e é-me sinistro ao dialeto. A minha língua prende-se e imobiliza-se, cerra-se os dentes, dá-se um nó no estômago até à garganta. O coração bate célere no peito, sem compassos que lhe marquem a música. Enfim, toda esta panóplia de efeitos que decorre do simples facto de me sentir desconfiado acerca do copo de leite que Portugal anda a tomar. Quanto custará aquela simples bebida naquele café ao virar da esquina? Caro Homem que lê estas estapafúrdias letras, digo-lhe que o café não estava acolá há meia dúzia de anos, se bem que depois do regime de ferro ele chegou a abrir lá para Belém. Agora aberto, ninguém se chega para pagar uma bebida ao camarada mais próximo. Salvo Portugal, que se alimenta a que custo? Não dá de comer a mais ninguém, pois não deve ter muitas moedas nos bolsos rotos. As calças já lhe são curtas, e o cinto está tão apertado que a barriga gorda se inflaciona.

A vizinha ou a televisão calaram-se quando lhes cortei a palavra, murmurando que não achava bem interferir no quotidiano de outro indivíduo. Portugal lá sabe o que faz. No entanto, espreitando o deleite do copo ao brindar contra o balcão troikiano, agora estando eu alheio ao frio da mesa e à memória do rio, vejo um Portugal melancólico, com as perninhas medrosas, os braços caídos sobre o colo, à espera do troco, quando o há.

            E, desta vez, não recebeu restos. Portugal virou costas ao balcão, deixou o copo com vestígios da lactose, sujo da sua boca um tanto mendicante, permanecendo a marca da sua sola presa ao chão de madeira polida. Saiu do café, frustrado, pobre, com as roupas andrajosamente coladas à figura, deambulando pela rua, aos encontrões a outros sujeitos apressados. Parece sentir-se embaraçado, infeliz, porquanto beber leite custou-lhe caro. Leva os bigodes rebocados, e anda a lambê-los com ansiedade. Parece um gato fugitivo, com fome e sede, que espera encontrar o seu abrigo.

            Caro leitor, não acha estranho Portugal ter ido beber leite e regressar à rua preocupado? Pois bem, tomei como certo o desejo de desvendar esta intriga, enquanto cineasta que não se melindra com pouco, e assim deixo este café, ponho as minhas folhas debaixo do braço e ajeito o lápis na curva da orelha. O café troika é já ali à esquina, venha comigo, venha, venha! Afinal, não sou nem você é coscuvilheiro, mas há que pensar nas consequências da permanência de tal estabelecimento numa cidade tão bonita quanto a nossa Lisboa. E há que pensar nos sentimentos do nosso camarada Portugal, que já só lhe vejo o vulto tímido.

            A porta está aberta, mas é como se estivesse fechada. Lá dentro não vive um jornal, nem uma bica, nem um pastel. Não se assiste ao bulício das vozes de Camões, nem mesmo ao tilintar das colheres nas chávenas. As cores são escuras, idosas em corpo e alma, em completa diacronia com a luz lisboeta. Há um balcão corrido sem bancos que o acompanhem, daí que não saiba onde me sentar.

– Ó da casa!

– Quem é? – e assim surgiu um homem calvo, com barbas longas e em bico, de expressão vazia, sem comiseração na voz, que me ressoou aos ouvidos numa frialdade nada agradável.

– Sou um português banal, cujo nome não deve querer saber.

– O seu nome não me é prestável. Diga-me, o que quer da troika?

– Um copo de leite. – disse eu, num tom genuíno.

By Filipa Ribeiro da Cruz

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