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“No caminho ” de José Edward Guedes

Fonte da imagem: http://piccsy.com/2011/05/may-the-road-rise-up-to-meet-you

Espero de longe uma gota de orvalho,
Enquanto ela esquenta o arroz e o feijão.
Nas horas de luxo ou tamanha afeição,
Costumo ver brumas de tanto cansaço;
Depois me desfaço e me faço em raiz,
E ela sorrindo não dá por vencida.
Distingo o ser vivo do ser mineral,
Na luta entre o verso e o reverso da lira,
Na sílaba morta, sepulcro do verbo;
José Aniceto mascando chicletes,
Cuspindo giletes, falando de chuvas,
Numa comovente mistura de gestos.
Mas ela ainda pensa que estou de partida,
E eu nem bem voltei e ela já fez as malas,
Falou pro Aniceto levar-me na marra,
Negou-me o arroz e o feijão azedou,
Tirou-me do chão, me mandou para o espaço,
Matou minha lira e a sílaba viva.
Cortei o meu punho com aqueles giletes,
Sai pelas ruas e veio a ambulância,
Levou-me direto para um hospital.
Mas não deu mais tempo, morri no caminho.

by José Edward Guedes

Língua: Português Brasileiro

One thought on ““No caminho ” de José Edward Guedes

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