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“Solidão” de Adriana Bugalho

Fonte da imagem: http://itwillbeancient.tumblr.com/

Autor da imagem: Simone Luek

Ouvia-a gritar lá fora vezes sem conta. Dizia para mim “é maluca, coitada”, sem perceber que a “coitada” afinal era eu, por nunca ter prestado a devida atenção ao que dizia.

Passava por ela de manhã, dava-lhe os bons dias e ela retribuía. Conversa de circunstância mais hoje que ontem, mais amanhã que hoje e menos depois que agora. Passavam-se os dias. A presença dela era quase familiar. Sempre ali estivera. Eu sempre passara ao lado. De quando em vez fazia-me perguntas, proferia afirmações sem sentido e eu assentia. Uma palavra ou outra e retomava o meu caminho.

Hoje ouvi de facto. Primeiramente não distingui o que dizia, só depois, ao abrir um pouco a janela pude compreender.

É triste, é muito angustiante pensarmos que mais cedo do que tarde perderemos alguém que nos é indispensável, alguém insubstituível. Imaginemos portanto o que será quando o dia chegar.

Vivermos sozinhos num mundo repleto de gente…

Fui absorvida por uma corrente de pensamentos. Quando despertei a voz dela quase não se distinguia – “eu voup’ró pé de ti” “eu vou p’ró pé de ti”. Talvez vá. Ela quer. Eu acho que precisa. Deus, se existe, que dirá?

Noutras noites, cantara o fado olhando para o céu. Hoje não sei para onde olha. Os meus olhos não a deixam ver.

By Adriana Bugalho

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