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“Chuva Ácida” de Inês Dunas

Há um sabor a chuva na noite dos teus olhos,

um gotejar de lamento ácido,

que corrói as palavras e as rasga numa dor contida…

Talvez tenha sido um tormento efémero,

infantil, imaturo, ridículo até…

Um amor de verão que começou porque estavas receptivo

e te apetecia devorar o mundo em gargalhadas,

mas não terminou sem te trazer a noite…

Perdeu a beleza pueril de construir castelos na areia molhada

e hoje é um sofrimento puro que te veste da cabeça aos pés…

Sim. Amaste.

A pontuação já explicou tudo.

Terminou, como terminam as férias grandes dos miúdos…

Passou a correr e tu ficaste para trás,

encolhido, cheio de medo, cheio de vazio…

E o frio abraçou-te e choveste e desfolhaste-te

e hibernaste dentro de uma concha, ou de uma caverna sem luz…

A espera de uma Primavera que nunca veio,

que se atrasou a ver as flores à janela e se esqueceu de ti…

Houveram gestos de promessas que não fizemos,

que comeram os restos que ficaram no prato das frustrações…

E aqui jazem as migalhas das ilusões todas,

entre a chuva que escorre por ti abaixo,

debaixo do olhar de tanta gente,

que não sente o sabor a amor nos teus olhos…

by Inês Dunas

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