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“O Acordar dos Sentidos” – Capítulo 1 – Parte 2. “Sinais” de Mefistus

“Hoje o mundo é um punho cerrado…
Amanhã talvez seja apenas, uma mão estendida… “
http://librisscriptaest.blogspot.com/2011/10/truz-truz.html

Outubro de 2012, Parque das Nações. Lisboa

A primeira entrevista, dada pelo líder do novo partido ao canal 5, teve a duração de sensívelmente quarenta minutos, durante os quais o share de audiência televisiva desse canal, bateu todos os recordes de audiência.
Quando Verónica, a repórter escolhida para a cobertura desse directo abandonou a sede do partido, sentia-se verdadeiramente entusiasmada pelo carisma do seu entrevistado, sabendo no entanto que difícilmente ele poderia captar a atenção do Povo, neste peculiar momento de crise. Mesmo com toda a encenação final, mesmo com o punho erguido a apelar ao slogan do seu partido ” Acordar Portugal!”, ela sentiu que difícilmente seria bem sucedido, apesar de francamente, a ideia dos três estádios lhe fazer sentido e as inumeras referências a Marx, Estaline, Lenine ou a JFK, mostraram-lhe que ele não era própriamente um “chico esperto”, mas alguem com uma certa cultura política.
Contudo sentia, no seu íntimo, que não tinha sido uma grande peça de jornalismo, sentiu-se várias vezes incomodada com a atitude manipuladora do seu entrevistado, durante toda a entrevista, mas a paixão, a fé que ele revelara quando falava sobre Portugal, de certa forma a conquistou.
Trazia no olhar um pouco do efeito da  magia que ele usara no seu discurso patriótico e inflamado e de certa forma revia-se naquela forma frenética de quem quer fazer a sua parte.
Pensativa, abanou as chaves do seu Corsa na mão esquerda, entrou na viatura e ao contrário do que lhe era habitual, não ligou o rádio. Serviu-se de um SG Ventil, acendendo-o demoradamente, abriu o vidro e fixou a parede caiada de branco com riscas amarelas florescentes do parque de estacionamento.
Talvez o facto de ter apenas 23 anos e de ser um pouco ingénua tenha sido o principal factor que a fez delirar com aquele sujeito de bigode fino e os seus ideais, ou talvez no fundo ele tenha despertado nela o sentimento unico de que de facto Portugal ainda é uma grande Nação, que ainda é possível sentir um orgulho avassalador em ser Português.
Entre espessas névoas de fumo, soltadas pensativamente pelos lábios vermelhos, Verónica tentava calcular qual o possível impacto daquela entrevista. Tinha no fundo, o secreto receio de que não tivesse tido a audiência que o líder necessitava e então encolheu os ombros, relembrando o episódio caricato da marcha pretendida pelo líder do partido . Não se tratava, na sua cabeça de algo novo, a princípio inclisivé, julgou ser uma cópia da Marcha dos indignados, surgida na onda de protestos em 2011, mas que de nada acrescentou de relevante no plano Europeu. ” Bem pelo menos ele faz alguma coisa…” desabafou entre dentes e rodando a chave na ignição dirigiu-se para o Parque das Nações, para a sede do canal 5.
No estúdio de televisão, Plácido e Ana consultavam atónitos os resultados do share televisivo porque ambos tinham  a consciência de  que a repórter escolhida não possuíra o traquejo necessário para tal entrevista e enquanto acompanhavam a mesma pela TV, pensaram que tinham perdido o furo e no entanto, desde o célebre frente a frente entre Soares e Cunhal, nunca desde então um político tinha cativado tanta audiência, sobretudo não sendo um debate.
De rosto fechado, ele  releu atentamente os gráficos, coçou ligeiramente o pecoço num sinal de certo nervosismo e rezou entre dentes, para não estar diante de um erro de processo. A acreditar nos resultados que dispunha, não só a Nação tinha assistido em peso à apresentação do líder, como tinha permanecido fiel a toda a entrevista. Ele tambem tinha visto a entrevista, mas por motivos profissionais e dentro da sua alma de polítólogo, não percebia o que o povo via neste indíviduo.  De certa forma, o líder do canal televisivo estava arrependido de não ter cobrado o dobro pela publicidade antes e depois da entrevista, pois os tempos não estavam fáceis e mais do que uma dose de confiança, seria de facto preciso uma injecção de capital e pelo menos à custa deste sonhador e do seu novo partido, o seu canal iria ser falado, a entrevista iria ser analisada até na rádio. Bem vistas as coisas, ter mandado uma repórter inexperiente nem foi assim tão má ideia.
Ana, por seu turno habituara-se a lêr os sinais corporias do seu chefe e não precisou de rever os gráficos, para adivinhar exactamente aquilo em que ele pensava:
-Este gajo pode ser  nossa catapulta.
-Como? – Indagou Plácido arrancado aos seus pensamentos pela voz fina e meticulosa de Ana.
-Estou só a pensar que deveriamos das mais atenção e destaque a a este tipo.
-Isso é ser imparcial?
-Bolas, eu sei que é nosso dever darmos a todos os partidos o mesmo tempo de antena, mas isto é diferente. Este tipo é o que  povo quer, é o que precisamos.
-Oh por favor, não acreditas-te naquela trêta de marcha e velinhas pois não?
-Porque não?
-Este País não vai lá com marchas, mas com uma revolução…
-Que foi exactamente o que ele disse!
-Sim, mas não dessas. Uma coisa em grande.
-Com armas? Tumultos?
-Talvez.
-Plácido, lembra-te de Paris, lembra-te de Inglaterra! Ao fim de um tempo toda aquela violência caiu no esquecimento e quando os carros começam a ser queimados, o povo afasta-se e censura…Não, isto é o tipo de revolução que o Português precisa. Uma revolução de ideias.
Plácido ignorou as leis anti-tabagistas e acendeu um Marlboro, perante o olhar atónito de Ana:
-Mesmo que essa marcha venha a ser concretizada, mesmo supondo que 2 ou 3 mil pessoas aparecem, o máximo que conseguimos com isso é um furo de trinta ou quarenta minutos! Sinceramente, parece-me que assentar toda a sua ideologia e todo o seu futuro político, numa marcha ainda sem data certa, é de certa forma dar um tiro no pé. Se a marcha fôr um fiasco, que estou certo que será, toda aquela estória dos estádios evolutivos não saírá do papel.
-Mas ele não é apenas um indignado, ele realmente parece ter um plano para Portugal.
-Pode até ser, mas é um plano a longo prazo e não acredito que o povo esteja na disposição de perder mais tempo. Ele não precisa de cobertura, ele precisa é de um aconselhamento político!
Ana tirou-lhe o cigarro da boca, apagando-o nos restos de café na chávena e sem se aperceber de que de facto ele era seu superior, continou a explicar a sua ideia:
-Nós não somos jornalistas, somos profissionais de televisão e nesse contexto temos de assegurar os nossos postos de trabalho. – Ana pausou a imagem do líder no monitor e continuou- Este Franco tem carisma, tem atitude, tem um modo unico de cativar. Sei lá, estou convencida que pode ser uma mina de ouro, se for bem aproveitado.
-Mina de ouro? Estás a brincar, não estás?
Ana estendeu-lhe a folha dos gráficos do Share:
-Só digo que temos a Verónica e o temos a ele. Se todos pensarem como tu, quano ele ascender, quando ele começar a ser notado, iremos ser ultrapassados pelos canais rivais e uma vez mais, perdemos uma excelente divulgação.
Como um flash, ele reviu o ano anterior, onde após ignorar o palpite de Ana, sobre a polémica da aprovação do Orçamento de Estado,assistiu impotente ao ascender dos canais rivais com directos e planos de ultima hora, enquanto ele tinha enviado a equipa de reportagem cobrir uma reportagem de menor importância. Seis meses depois, ela saia de sua casa com as malas, sem tecer qualquer comentário.
Olhando a sua ex-mulher, encolheu os ombros e  resignado, consentiu:
-Ok, trata tu deste assunto.Carta branca para qualquer cobertura que pretendas. Desta vez, seguiremos o teu palpite.
Ana sorriu e se bem que a intenção dela, não fosse a de despoletar lembranças e mágoas do passado, concordou para si, que tinha sido feliz, ao  invocar a lembrança.

Outubro de 2012. Aqueduto Águas Livres, Évora.

No Hotel diante do Aqueduto Romano iluminado, o principal mentor da Extrema- Direita em Portugal, olhava de soslaio para o anúncio que se seguira no canal 5, à entrevista dada pelo líder de um novo partidop, supostamente de esquerda.
Preocupava-o o facto de ele, enquando líder neo nazi não ter tido a ideia de um desfile ou marcha destas dimensões.
Ele percebia claramente o que o novo partido pretendia e compartilhava a ideia de que, mesmo que essa marcha fosse um fracasso, esse partido teria cobertura televisiva e seria falado.
Seria acima de tudo uma excelente publicidade e esfregando as mãos, num gesto decidido, pensou com oda a legitimidade, numa chance de os membros da sua fracção se misturarem com esta marcha e então criar o Caos pretendido, ocultos pela ideologia vaga desta marcha.
Seria sem duvida um óptimo trampolim, para armar a bagunça necessária e evitar que fossem reconhecidos.
A má publicidade seria associada a este ptido e não à sua facção. Então das cinzas dos confrontos, no fim dos combates, ele surgiria a clamar o completo desgoverno do Governo e de ideias dos partidos e colheria frutos junto da opinião pública.
Decidido, fez um telefonema, pensando já nas tentativas de mobilizar os seus elementos para a Grande marcha silenciosa (dizem eles!).
Só a Anarquia podia, na sua mente, salvar Portugal.

Outubro de 2012, Avenida Fernão de Magalhães. Porto

Santos Veiga mexeu-se desconfortávelmente no seu cadeirão de couro creme, coçou preocupadamente o nariz e baixou o som do plasma, no comando preto da Meo, perante o silêncio repentino que se instalara na sala.
Os doze amigos que com ele assistiram à entrevista do líder do novo partido, olharam-no em silêncio:
-Perceberam agora a força que este gajo tem?
-Bem, de facto ele esteve muito seguro. – Retorquiu apressadamente um sujeito de óculos redondos.
-Como vos disse, este Franco tem uma personalidade unica. Creio que é  o tipo de homem que nós precisamos e bem vistas as coisas , o nosso dinheiro será muito mais bem empregue nele!
-Mas não temos eleições para breve e o que ele pediu de financiamento não é própriamente  algo leve. – Respondeu um outro sujeito de fato e gravata.
-Sei que não é o momento certo para ter o apoio da banca, meu caro Rodrigues, mas talvez este fulano seja o retorno que esperavamos. Quanto às eleições, é tudo uma questão de esperarmos. Não vejo este Governo a aguentar-se muito tempo.
-Não percebo a ideia da Marcha, Não era bem isso que tinham combinado. – Atirou desconfortávelmente um outro elemento daquela sala.
-Foi um improviso, uma vez que não falamos com ele sobre isso. Mas não me parece uma ideia assim tão absurda. – Advertiu o anfitreão.
-Mas isso é regularmente feito e não vejo a dimensão que possa vir a ter.
Santos Veiga encarou o seu convidado e acendendo um Cohiba, convidou:
-Meu caro, tu és jornalista, por isso foste convidado. Umas linhas no teu jornal serão um bom empurrão para o implementar da ideia.
-É certo! – Atirou o sujeito de óculos redondos- Até pode ser possível, se for bem organizado.
-Precisamente! Só temos de ver quantas pessoas conseguimos meter em autocarros para lá- Temos que mobilizar isso um pouco.
-Bom, meus senhores, isso será no futuro. para já, teremos de decidir se avançamos ou não com o financiamento?
Com o corpo cilíndrico do charuto a rolar hesitantemente nos seus dedos, o outrora general das forças armadas, aguardou que os braços se levantassem.
Vendo que tinha o apoio, os seus dedos grossos pegaram no telemóvel e num riso confiante iniciou a chamada.

Outubro de 2011, Marquês de Pombal. Lisboa

De pé, voltado para a pequena janela, concentrado na imponente estátua do Marquês de Pombal, no centro da rotunda, João Franco recuperava o seu ar cuidado e distante.
Tinha ficado extremamente satisfeito com o rumo da entrevista e no seu íntimo, sentira que marcara pontos , apesar de reconhecer que em certos momentos acusou a falta de experiência política, bem como uma certa habilidade para tornear as questões mais complicadas. A sua sorte, se é que de facto a teve  , deveu-se em grande parte à inexperiência da repórter. Tivesse sido outra mais experiente como a Julieta de Sousa e então teria patinado em gelo fino.
De mãos cruzadas atrás das costas, aguardou o tempo que julgou ser suficiente, que permitisse à repórter abandonar a sede do partido e então sorriu com algum prazer, sentando-se á sua secretária e aguardou que o seu telemóvel pessoal tocasse.
Não foi preciso esperar muito e em minutos, a voz rouca e contudo solene, transmitia a sua opinião:
– Franco, gostei do que vi e ouvi e penso que poderemos de facto agitar as águas.
-Muito obrigado Grande Comandante.
-Só não entendemos a ideia da marcha.
-Peço desculpa por isso, mas é algo que tenho vindo a pensar. Creio que será o tónico necessário para nos mostrarmos.
-Mas Franco, devias ternos consultado. Para que isso seja realmente digo de se notar, será preciso mobilizar certas forças, preparar um marketing agressivo. isso leva o seu tempo!
-Estou consciente disso Grande Comandante, mas não receie, isso foi pensado e estamos neste momento a preparar esse passo.
-Bom, – sentnciou ele demoradamente- De qualquer forma achamos que pode ser importante, que aquilo que precisas será tido em conta. Chegamos à conclusão que vale a pena apostar nessa tua visão.
Grato por estar ao telemóvel e não pessoalmente, o líder deu-se ao luxo de exibir um rasgado sorriso e sem perder o timbre humilde, avançou:
-Obrigado uma vez mais Grande Comandante.
Quando terminou a chamada, Franco abriu os braços de satisfação, para logo de seguida esfregar as mãos de contentamento. Sem se deter,premiu o interruptor branco e prontamente um indivíduo fardado como ele surgiu no gabinete:
-Luz verde para o projecto. Vamos começar a segunda parte do plano.Como está tudo?
-As lonas e cartazes estão terminados e prontos a ser colocados, meu  Líder.
-Optimo. Quanto aos constactos?
-Activamos algumas células já. A distribuição será feita dentro das próximas horas.
-Perfeito. Com este empurrão da televisão, conseguiremos facilmente mobilizar as células.  Quero todas as redes sociais activas, todos os contactos privados de telemóveis, todos os cafés….Se a Primavera Árabe resultou desta forma, tambem resultará conosco.
-Temos data para a Grande marcha?
-Ainda não. Esperava apenas saber se o Marketing está pronto.
-Certo meu Líder. lgo mais?
-Não….Espere, sim. Esta repórter que veio aqui. O que sabemos dela?
-Pouco, meu Líder.
-Quero saber tudo. trata disso!
-Imediatamente, meu Líder.
Deixando o seu braço direito Antunes, Sargento das Forças Armadas se retirar, Franco pegou no telefone e marcou um número, mal a voz sonolenta estalou, interrogou:
-Preciso de uma data!
-Estive a consultar as cartas metereológicas. Apostava para 22 de Outubro. No entanto o tempo é instável e …
-Não quero Filosofias, quero dados precisos.
O sujeito respirou fundo e atirou:
-Vinte e dois de Outubro. Aposte nisso!
-Perfeito. Temos 20 dias.
-Lìder?
-Sim.
-Parabens pela entrevista.
Não escondendo um sorriso de prazer, adiantou:
-As redes sociais são o teu departamento. Trata disso, inunda-as com a nossa mensagem.
-Sim, Líder!
-Ao trabalho!
Como uma bola de neve, a ideia foi ganhando forma e ansioso para a sua primeira grande mostra de força. Contudo, nem nos sonhos mais irreais que pudesse ter, imaginaria o que de bom aí viria!

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