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“Casulo” de Clarisse Silva

Não. Não saias desse teu casulo. Não perguntes como estou, como tenho passado, se algo me tem preocupado. Fica nesse teu mundo, onde não me atrevo a penetrar. É um gelo ardentemente espesso que me impede de te observar. Onde estás? Sim, tu, sangue do meu sangue, que me deu vida e que vejo todos os dias embora nunca consiga observar. Falas uma fala que não me diz o que um dia gostaria de ouvir, sem apetrechos, sem medos, despindo a alma do tanto que há por dizer. E o que eu te poderia dizer? Ah… Poderia falar-te das mágoas que se avolumam de cada vez que não vejo a atenção ser dada da mesma forma a todos; poderia falar-te daqueles pequenos nadas do quotidiano que tanto gostaria que existissem, ao invés de te ver todos os dias assim; poderia falar-te de um olhar que ficou por dar, uma palavra que ficou por dizer… Tanto que teria para te exprimir que fico-me assim, tal como tu, nesta masmorra consentida conscientemente até que qualquer dia tenha a força e a coragem – caso não a tenhas tu -, de ultrapassar essa parede de gelo que criaste à tua volta. Por enquanto, tomada pelas mágoas que insistem em crescer em mim – mesmo quando nada o faria prever, após uma alegria mútua -, não me sinto com a mínima disposição de tentar mudar tudo isto. Rendo-me perante esse monstro invisível que existe entre nós, não com medo, mas com desconsideração face a toda esta situação. Se queres permanecer nesse casulo, quem sou eu para dizer que não deves?!

 

by Clarisse Silva

2 thoughts on ““Casulo” de Clarisse Silva

  1. Olá Mefistus,

    Só agora vi este comentário.
    Bom, ler o que li nele, faz-me transportar esse interior que falas, cá para fora, tomando conta de mim. Fazer o leitor sentir é missão cumprida, e realização efectiva.
    Muito grata.
    Clarisse Silva

  2. A força narrativa de Clarisse, nunca nos deixa indiferentes ou sequer possibilita uma leitura rápida.
    É um talento enorme no modo como nos “fala”, como nos narra aquele interior fértil e rico, como um grito. como uma força em espiral de vitalismo.

    Faz do monólogo, um diálogo interessante entre ela mesma, numa beleza narrativa, como se um monólogo de teatro o fosse. E eu juro que vejo a personagem, com um foco de luz sobre ela, num palco de resto escuro.

    Muito bom!

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