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“O Fantasma apaixonado” de Casimiro Teixeira

 

Fui procurar-te naquela tarde, depois do fim, pois
sabia que ao morrer teria de te explicar que a morte é uma transição, um início
fresco, outro caminho a percorrer, e que tu também o deverias saber. Era
imperativo que o soubesses. Foi sempre esse o meu desejo, trazer-te ao meu
mundo e explicar-to, deixar de ser eu próprio um fardo e ansiar somente pela
nossa vida a dois. Arrancar a moléstia do estorvo físico e voltar a viver,
contigo.

Não te encontrei porém, e descobri apenas imensidade,
pensei se não me teria enganado, pois todo o espaço do além, enorme cá dentro,
pareceu-me insuficiente para nos conter a ambos. É isto o infinito? – Coisa tão
pequena que nem nos basta.

Desolado, o meu espírito naufragou, apagado pela eternidade deste limbo
solitário, tornei-me este pedaço de poeira do tempo a vaguear inerte, sem rumo
e sem ti.

Será possível que um fantasma também sinta saudade?
– Suponho que sim, não, minto. Acredito que sim, pois que outra coisa poderia chamar
a este solavanco de tempestade que me arrepia o lençol, figurando uma dor
física onde antes havia um corpo? – Que bulício de inquietude é este que
transforma o sonho eterno da paz, num devaneio tão utópico, que de tão
intranquilo até faz um espectro soçobrar de medo?

A eternidade corre perra e lenta, quis que fosse
veloz, sonhei que assim fosse, mas estava mesmo enganado, e percebi o que era
não conhecer o alívio. É isto. Morrer, e não mais conhecer o doce toque de um
gesto teu, e ter somente presente a tortura de te ver para sempre.

Como estavam certos os filmes, e maldito seja por
nunca lhes ter dado fé. Um espírito que ama, só conhece a nostalgia eterna,
pois é só o que lhe resta; aspirar aos sonhos que teve e confina-los cá dentro
numa poça de lágrimas para sempre, e sempre, sempre longe…

É esta a agrura daquilo que sou agora. Nunca mais
homem, nunca mais teu, apenas um farrapo de alma desfraldada, sem ter sequer
uma brisa que o afague levemente.

Porque temos nós de voltar a assistir a um mundo
do qual nunca mais teremos oportunidade de fazer parte?

Só existe algo que nunca termina, que é eterno,
doloroso, desgostoso, mas imenso, levanta-nos e faz-nos ir ao fundo, só isso
nos agrada e nos dá sossego e até nos segue depois de mortos: O Amor.

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