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“Estacionamento e Cabine Telefónica” de Sílvia Armas

 

Este Verão trabalhei 26
dias na Feira de Artesanato do Rossio, mais concretamente na barraca destinada
aos ovos-moles e outros doces tradicionais de Aveiro. Quando soube desta
oportunidade, instantaneamente imaginei longas e longas tardes a ver as horas
passar, por isso pensei em várias coisas com que eu pudesse distrair-me.

Achei que observar a
cabine telefónica e o parque de estacionamento, que se encontravam mesmo em
frente à frágil estrutura onde eu trabalhava poderia, eventualmente originar
alguma inspiração.

O movimento do parque
de estacionamento alimentava o negócio que se passava, de seguida, na cabine.

Meus caros, o Rossio de
Aveiro está repleto de coisinhas boas. Quem conhece este rossio certamente está
a par de que este local simboliza um verdadeiro poço fértil de droga e
prostituição, portanto, um paraíso gordíssimo de grandes movimentos sombrios.

Este estacionamento
representa toda uma fonte de riqueza para aquelas pessoas que têm uma forte
necessidade de andar com o corpo e a mente carregados de estupefacientes e sob
o efeito das grandes mocas que estes mesmos proporcionam.

Este género de
indivíduos fazem uma procura incansável de lugares vazios, para que tenham
oportunidade de receber uma moedinha dos desventurados que lá estacionam, pois
se não há moedinha é provável que depois não haja carrinho. Conhecemos o tipo
de comunicação desta gente e, por isso basta um simples olhar fulminante vindo
dos olhos desses bodes, que percebemos logo que a melhor acção que podemos ter
para com eles é dar-lhes a tal moedinha, se não queremos levar com uns valentes
riscos no carro. É engraçado como este tipo de “trabalho voluntário” pode
tornar-se rapidamente num simples ‘jogo da cadeirinha’, visto que, por vezes,
são mais os gandins no estacionamento
a tentar saciar a sede, que lugares vazios.

Eles até são
trabalhadores. Acontece termos de estacionar num lugar mais apertado, ou que
exija outras manobras e lá estão eles com umas folhas A4 na mão ou uns jornais,
que nem sabemos onde eles arranjam esses papéis, a fazer círculos e mais
círculos com os braços e a mandar uns berros pró ar.

Mas, meus amigos, estes
tempos têm de acabar. Aproxima-se um período de grandes apertos em que o
oxigénio vai faltar-nos ainda mais, portanto temos de dar uma lição a estes
índios. Temos que mostrar que somos cidadãos exemplares e, por isso vamos todos
andar acompanhados de algo de cause uma morte rápida e eficaz. Pessoal, se
tivermos de matar, matamos! Ao fim e ao cabo são chulos que não desamparam o
mundo se morrerem, para além de estarmos a acabar, de uma vez por todas, com o
sofrimento destes animais.

‘Grão a grão, enche a
galinha o papo’. Que destino dão essas bestas a todos os humildes trocos que
ganham? Oh… enfim…

Antes de obter este pó
calmante para fazer face à depressão destes bois, vão todos com grande
ansiedade e rapidez, encher a cabine telefónica para ligar ao magnata deste
negócio da maizena. Estes camelos,
por vezes, ainda são surpreendidos por inúmeras cadelas a gritarem que há falta
de dinheiro e de clientela. Queixam-se como se eles fossem o Jesus que lhes vai
transformar os clientes em dinheiro.

Aquela cabine telefónica
é uma verdadeira arca de Noé. É vasto o número de animais que entram lá dentro.
É um cubículo, não há dúvida nisso, mas de facto penetram lá várias espécies de
seres irracionais e de tantas outras coisas que eu mesma desconheço. Cabe lá
tudinho!

Ainda vos podia contar
a perseguição que sofri de um indiano; o meu ataque de histeria quando descobri
que um rato habitou numa caixa de cartão no stand
onde eu trabalhava; ou quando usufruía das casas de banho de cafés,
restaurantes e até mesmo do hotel Moliceiro devido à falta de condições.

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