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“Traço a pincel” – 5ª Parte do “Diário de Quem Ama…” de Dany Filipa

Traço a pincel

Sofia tinha perdido os sentidos no mar. Não sabia bem nadar, mas ela também não queria nadar, queria morrer, queria que o mar a levasse para longe dali, queria que o mar lhe limpasse a dor do amor, para sempre. Mas isso não aconteceu.
A jovem acordara deitada numa maca de hospital. A custo abre lentamente os olhos. Estava só, ao seu lado apenas uma outra maca vazia. Ao contrário do que seria de esperar, ela não acordava com sons de ambulâncias, berros, macas a bater nas portas, bebes a chorar ou famílias constantemente a questionar os médicos para saber do estado de saúde dos seus familiares. Sofia acordara com música de fundo, através de um pequeno rádio de bolso que estava em cima de uma cadeira, junto à porta.

“Num quadro teu, traço a pincel,
a história da tua vida,
escrita, sentida, tatuada na pele”

A jovem ouvia atentamente a melodia, até que lembranças lhe começaram a surgir na cabeça. Mais uma vez era inevitável. Mais uma vez ela pensara nele.
Conhecera-o na esplanada de um café, numa noite de verão. Sofia tinha acabado de chegar, olhava a escolher um lugar vago para se sentar e na altura em que puxava a cadeira para se instalar a beber uma água das pedras, uma voz por trás de si pergunta: “tem isqueiro”. Era uma voz jovem, masculina, com um pouco de sotaque, que a jovem não conseguiu identificar de onde. Respondera-lhe que não, enquanto olhava para trás, enfeitiçando-se com um olhar cor de mel, que transparecia brilho, mas também um pouco de escuridão, dor. Ele também a olhara-a nos olhos. Naqueles olhos penetrantes, esverdeados, que enfeitiçavam quem olhava…
Ele sorriu e agradeceu. Ela enfeitiçada sentou-se a olhá-lo. Ele sentara-se junto à sua mesa. Ela simplesmente rapara nele e só nele. Tudo à sua volta deixava de existir, as pessoas, os sons, tudo…era só ele, ele e ela.
Jovem, bonito, sorriso tímido, braços fortes – repara ela sem lhe tirar a vista de cima, enquanto ele de cigarro na boca, passa sinal ao empregado de mesa, que lhe acende o cigarro. Ele piscara-lhe o olho. Ela corou. Abriu a sua água das pedras, enchendo o copo, mas não bebeu. Ficou a olhar a garrafa, tentando desta forma não olhar para ele, mas não conseguiria. Olhara e encontrara uma vez mais o olhar dele a olhar para ela. Mas esta troca de olhares, rapidamente foi interrompida por uma ex colega de escola da jovem. Sofia ficou fula, pois estava rendida ao jovem e toda a sua atenção para ele fora interrompida por uma colega da qual nem nunca gostou muito. Apesar do sorriso, a tentar passar simpatia para a sua ex colega de escola, Sofia por vezes olhava na direcção do jovem, ele apenas lhe sorria. Mas passado alguns minutos, a Sofia olha e encontra a cadeira vazia. Ele já não estava lá. Na ânsia de ver se encontrava aquele jovem que lhe despertara o interesse, Sofia despede-se da colega e olhando atentamente ao seu redor, enquanto seguia em direcção ao seu carro, procurava-o. Mas não o vira. Já desanimada, a jovem entra no carro. “Mania de colocar publicidade da treta nos vidros dos carros” – desabafa a jovem enquanto saia do carro para tirar a tal publicidade do vidro, mas para sua surpresa não era publicidade da treta, como Sofia chamara, eram palavras escritas pelo jovem da voz com sotaque.
“Os meus olhos ganharam brilho, desde que olharam os teus. E o meu sorriso ficou mais verdadeiro, desde que sorriu para o teu.
Um beijo terno do pedinte de isqueiro”
O sorriso de Sofia, sorria como nunca antes, os seus olhos brilhavam como nunca antes. Sofia olhara mais uma vez à sua volta, mas não o via. Entrou no carro, de sorriso gravado no rosto e seguiu viagem até casa, a pensar naquelas palavras e se o iria voltar a ver…
– Vejo que está muito melhor – Interrompe o médico do hospital os pensamentos de Sofia.
– Sabe que o mar, apesar de bonito é muito perigoso. Não devia ter arriscado a sua vida naquele mar bravo. Teve sorte! Um jovem que por lá andava resgatou-a…
– Um jovem? Como era ele? Como se chama? – Questiona a jovem, curiosa.
– Lamento, mas não lhe sei dizer. Eu apenas a recebi aqui. Mas o importante é que está tudo bem, regresse para casa, tire o resto do dia para descansar e não se aventure mais.
Sofia deixara o hospital e na sua cabeça apenas uma pergunta a si mesma fazia, “quem é que me salvou da água” e apenas uma resposta encontrava ou apenas aquela resposta ela queria crer a si mesma. Talvez, a mesma resposta, que o leitor esteja a pensar… Mas será?

(continua)

by Dany Filipa

One thought on ““Traço a pincel” – 5ª Parte do “Diário de Quem Ama…” de Dany Filipa

  1. Será? Talvez tenha sido… Mas mesmo não sendo, essa duvida encheu de esperança Sofia… Descortinas agora, o inicio desta bela historia, sinto-me a desembrulhar, devagarinho, um presente, cujo papel é bonito e não apetece rasgar… :)))
    Beijinho grande em ti!
    Inês Dunas

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