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“Voz de Chuva” de Hugo Crema

Andar em São Paulo demanda os mesmos instintos do que andar na chuva. não dá pra andar rápido, sob o risco de perder o guarda-chuva, ou ir em linha reta de um ponto a outro, sempre precisa de atravessar uma calçadinha pra chegar à marquise, seguir até o quiosque de chaveiro, dobrar. Demanda errância, eficazes ou não meios de transporte, não se chega a um ponto, só é possível voejar em torno, imaginá-lo, dar-lhe um contorno por cópia do que te cerca na hora de imaginar, não imaginar que o taxista só revela na última hora que não pode chegar mais perto, lá é contra-mão, imaginar as janelas severas ao longo da viela que levaria ao ponto, imaginar que o alumínio das portas fechadas do comércio ecoe nossos passos alto demais, imaginar um barulho dentro dum contêiner de lixo, imaginar estreita a viela, imaginar logo um assalto, a ferrugem do canivete, o automático e o premente da ordem, as olhadelas prum lado e pro outro voejando pro que possa vir a ser testemunha, imaginar tudo isso que torna essa viela, por sua vez, um ponto, em torno do qual voejo. Imaginar tudo isso, desistir, se afastar, ficar parado. E, no afastamento, é longe, não devia ser tão bonito assim o ponto, quem sabe, se satã quiser, bater nele de raspão. Ou em algo parecido. É a cidade repetida, como as músicas daquele cd que toca no taxi, tudo é só minimamente diferente do que veio antes, variações imperceptíveis, ad nauseam, por isso a sensação de vagar em círculo, circular.

by Hugo Crema

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