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“O Pivô e o Artista” por Luiz Milhafre

                                                      O pivô acordou com um estilhaço de insónia na explosão de silêncio do quarto e levou a mão à cara na procura de sangue, depois viu-se fora do cenário de guerra da semana passada, salvo de tiros, bombas e daquela gaguez de microfone perante a câmara, acordou primeiro com o olho esquerdo, o olho que não vê, o cegueta que não crê, de caras com a fronha da almofada, a íris abriu-se num charco de dioptrias no vulto, depois o direito, não um olho, é o olho, o que enxerga, nota e avista, o que julga, o que acredita e assiste, o olho famoso que pisca rosas às fotos das revistas das festas,  que vê sempre no íntimo das notícias e nos mais longínquos tele-pontos, o pivô desembrulha-se agora do reboliço de lençóis da cama, ainda a cheirarem a migalhas de pão, restos de corpo, sabão mal importado e a um recente pivete a divórcio, sente as olheiras a incharem no escuro, palpa-se com os dedos no desgosto que a maquilhagem de areia tapará nos bastidores do estúdio, ali no quarto tudo se baloiça de uma vertigem suspensa que não sabe explicar, no roupeiro um espelho debruça-se na sombra da carpete, num dos cantos a cadeira dos restos de roupa numa vigília quieta de senhora de idade, a cama aos estalos de madeira num estrado partido ao meio, é escoltada por duas cabeceiras a gozarem nas línguas de gaveta vazias, o candeeiro em cima com uma alma penada fundida na lâmpada, o pivô pergunta-se que quarto é este afinal ao relento da hora, o pivô vê o sono a resistir à solidão da tarefa, se há coisa que quer na vida é olhar a noite até cair de oco, um vazio de corpo no vazio de espaço, não alinha em nada, não quer alinhar em nada ausente de luz natural, um estilhaço de insónia na explosão de silêncio do quarto a fugir-lhe ao tempo e ao comprimido dos nervos e sem luz natural, pois teve-se de levantar, andar pela casa a adivinhar paredes e interruptores que não liga, a tropeçar em desarrumes esquecidos no chão, palpitações e arritmias latejam-lhe o medo, sentou-se no sofá individual da sala a penar e com pena de si, assistiu aos olhinhos de luz das persianas, ouviu vento nos galhos lá fora, carros noturnos a chiar os pneus, enerva-se com os intestinos de esgotos do prédio e com fantasmas de vizinhos de chinelos a despejarem-lhes diabetes para cima, o pivô suplica por luz natural, só assim poderá pensar sem cair na difamação de si próprio, no entanto acha quase certo que por ali, nestes momentos, nalgum dia, acabará caído de morte por palavras pensadas que lhe sairão cabeça fora à pedrada.

                                                 O artista ainda não se deitou nem quer ceder tão cedo, queima-o um motim de lume nas veias, algo começa a tremer na respiração por uma chegada próxima, não quer ceder mesmo com as primeiras laranjas no céu, olha a tela que pinta e nela pergunta se meio cheia se meio vazia, porém na mesa ao lado garrafa e cigarros vazios já largados corpo fora, afasta-se para trás e volta a chegar-se à frente numa pega tosca, intriga-se com os dedos a coçarem de tinta a pele, depois espanta-se, como consegue grelar assim vida onde não há nada que viva, apenas um limite fosco de uma morte branca, de onde tudo nascerá por contradição, como se pode apanhar na cor a ficção tal que deixe a realidade ao léu, a vaguear sozinha na falta de sentido, na sua própria aceitação, o artista zangou-se de súbito, não quer isto, nada disto, nada de questões, nada de perguntas, quando assim é perde a mão para o traço que já não é o seu, é o de um alter ego aflorado de espelho sem que por lá se reconheça, trabalha num pequeno palco iluminado, ao centro de um atelier que é um anfiteatro, aplaudido de pé a toda a volta por vultos de outras telas, obras adormecidas ao pó, sobejos desmembrados, granitos esmurrados por braços de fé, numa estante livros guardam a arte à falta de crença, mas o artista não quer palmas, dá-se conta de  estar sozinho na matéria, é um artista amigo que é um conhecido a quem já se deu demasiadas palmadas nas costas, o artista acha-se cheio de luz pela hora, o desenho de pulso acelera-se de fome na tela, os traços gemem ao toque de conjunto, tudo se encaminha na reunião de forma final e derradeira, até que a mão, já mole e exausta, amortece o desejo e acaba finalizada ao pendurão de um braço cumprido, sempre cumprido na figura de estilo universal por exceção à regra.

                                               O pivô caiu em si derrotado no sofá individual, encostou-se bem atrás, braços bem alinhados, certos na tensão, olhou na direção da parede em frente e admirou-se mais uma vez, a beleza tinha a feição grata de um momento escuro, a vida a tentar compor-se quando tudo lhe parece esfumado, uma nuance entre paredes a querer libertar-se e a levá-lo consigo, sentiu os lábios da boca tremerem, uma dormência nas têmporas, a seara dos pelos levantou-se, a lágrima a forçar na vista, o despertador entretanto berrava no quarto e o pivô agora uma sombra a arrastar-se corredor fora, a luz natural já na rua, depois foi um chorar no banho, um chorar no elevador, a despejar o lixo, a tirar o carro da garagem, um chorar na viajem pela cidade, nos semáforos, nos cruzamentos, no para-arranca do costume, a limpar-se nas mangas do casaco, na entrada do estúdio, disfarçava ao cumprimentar os colegas, não se passa nada, é da sinusite ou do gás lacrimogéneo da semana passada , a beleza tem destas coisas, uma comoção inesperada e que jorra assim de repente, sem avisar, sem que se lhe possa escapar.

                                                O artista sentiu um cansaço, um enjoo, os aplausos suspensos no momento, telas, sobras e granitos calados de susto, uma tontura, um calafrio, um estranho suor na testa, com poucas forças, agarrando-se onde podia, sentou-se no sofá individual ao canto, olhou em frente para um televisor, em cima de uma pequena mesa, pegou no comando e ligou-a, a distrair-se do mal-estar, da indisposição, pegou no telefone e marcou um número, a voz trémula sai-lhe a puxar sinos de finado pelas cordas vocais, uma frase inteira e única, tão sozinha de medo, na televisão alguém diz que a bolsa abriu em baixa e que há sete incêndios ativos não sei onde e céu pouco nublado para o dia, o artista encostou a cabeça para o lado, na espera de um sono, os sons nos ouvidos num eco de poço, e nisto um sol brilhante, de corpo inteiro, entrou pela moldura da janela e nesse mesmo momento qualquer coisa no tempo do relógio mudou, sem que se esperasse e sem aviso de receção.

                                                     O pivô agarrou nos papéis e alinhou-os de encontro à mesa, empurrou o auricular na orelha com os dedos, disseram-lhe um minuto para retomar e disse que sim com a cabeça, no tele-ponto frases feitas, nos papéis confirmava o alinhamento, a bolsa abrira a negociar em baixa, uma quebra de 0,8% alinhada com outras praças, no país sete incêndios ativos, quatro no norte, dois no centro e um no sul, populações e casas em risco, na cidade uma vaga de roubos noturnos, a polícia a recomendar precauções nas férias, avise que nós damos uma olhadela, o tempo na mesma desde há uma semana, poucas nuvens e calor, está bom para banhos, da régie cinco segundos, o pivô esfregou os olhos, as olheiras a denunciá-lo no cansaço, o olho direito a compensar o esquerdo, iniciou então a leitura, a voz não muito clara, um pouco rouca, a câmara parada a ver e a ouvir pelos anónimos unidos na outra ponta dos fios, em lugares camuflados de gente, gente disfarçada de audiência, o pivô a achar-se um boneco animado, que não existe mas que entretém, qualquer um faz isto, que trabalho é este senão ler o trabalho dos outros, era melhor mais um comprimido para os nervos e isto passa, o realizador falou na orelha a atrapalhar a leitura, a voz solene a dizer toma nota, a seguir vais ter de dar uma notícia de última hora, o pivô enrolou as letras e pensou todas as notícias são de última hora até deixarem de ser ditas, ninguém morre até deixar de ser falado, pensado ou uma última célula lhe manter a imagem guardada, o pivô ouviu, leu e ouviu, recebeu a notícia e parou de ouvir e de ler, a voz foi-se, o tele-ponto abrandou, os técnicos ao fundo quietos com os cabos na mão, um silêncio de embaraço no estúdio, os olhos do pivô deixaram de olhar a câmara, os olhos bem abertos que não viam agora, olhavam um quadro de parede na sala de estar, a beleza extenuada calcinada na força, disse estive-lhe a ver o quadro hoje, não é possível porque olhei-o nos olhos hoje, o realizador estás maluco ou quê? anda-me com essa treta para a frente, os técnicos parados ainda de cabos na mão, de boca em ó, é das poucas coisas de que gosto na vida caramba, aquele quadro é do pouco que tenho de bom, não acredito que lhe estive hoje a fazer o velório, da régie temos de o tirar do ar porque ficou maluco, intervalo com ele e alguém que o substituta por favor, o pivô sem glória olhando a câmara, a chorar, a face a segurar a honra de um homem na arte, sem ler no tele-ponto a notícia cozinhada, disse dou-lhes agora conta de uma notícia de última hora acabada de chegar à redação e chegada a mim também, muito chegada a mim, senhoras e senhoras, para nossa grande lástima, hoje morreu o artista.

 

by Luiz Milhafre

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