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“Desabafo molhado” de Rosário Palma

Saio à rua numa noite de chuva.
Verto tantas lágrimas que se confundem com a chuva que me molha.
Preciso respirar, sinto-me sufocar naquele quarto fechado.
Sabe bem a chuva fria, lava-me o corpo e a alma.
Falo com ela, em tom de desabafo.
– Também estás a chorar?
Ela não me responde mas eu sinto que me diz que sim.
Pode parecer loucura, ou será mesmo? Mas falo com a chuva como com uma amiga.
– Tu, sempre que cais, também estás triste e sentes-te como eu?
– Porque temos de sofrer desta maneira? O Sol só ri e faz sorrir, tu não, tu és como eu. Representamos a tristeza, já viste? Ninguém gosta de nós.
– Ninguém diz “Que bom está a chover”! Mas quando faz Sol dizem “ Que bom este Sol, dá-nos outra alegria, parece que temos uma alma nova”.
– Mas tu, afinal, fazes tanta falta como o Sol. Então porque não gostam de ti, tal como não gostam de mim?
– Hoje estás a chorar demasiado. Eu, também me sinto assim triste, e quase choro tanto como tu.
– Achas que estou louca por estar a falar contigo? Afinal não tenho mais ninguém com quem desabafar. Não me respondes por palavras mas estás a comunicar comigo, em cada pingo que vertes, eu entendo-te tão bem.
– Chora chuva! faz bem, assim desabafamos e ficamos menos tensas, menos tristes.
E ali continuo eu. Fecho os olhos para sentir melhor  esta chuva na minha face.
Suave e fresca, comunica comigo e eu com ela. Entendemo-nos bem.

by Rosário Palma

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