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“Coração que Não Sangra” de Casimiro Teixeira

Ela hesitou. As últimas palavras ficaram suspensas no ar do quarto como uma nota insistente. Adolfo chamou-a de novo, ela pôs-se de pé e aproximou-se sem guardar recordações de nada, porque tinha o coração definitivamente mutilado para o amor.

– A natureza é como uma criança que brinca com as nossas vidas. – Insistia Adolfo com o mecanismo de uma fala triste.

Laura, tal como lhe anunciara antes, deixara, debaixo do tapete, um molho de chaves de que Adolfo se servira para entrar. Construíra interiormente uma ideia de paixão para aquela noite, estruturada no desejo que sentiu quando o conhecera na noite anterior.

– Ninguém faz um bicho-de-sete-cabeças por causa de um encontro casual. – Respondeu-lhe.

– Eu faço! – Exclama Adolfo. – Tenho de o fazer, de outro modo..

Ao fim de quase uma hora, um dique tinha-se rompido na sua cabeça, e um laivo colérico de desilusão escapou-se-lhe dos lábios, interrompendo-lhe o discurso.

– Porque raio é que nunca me sai um homem normal na rifa? – Que se dane! – Pensou depois. – Não preciso de aturar isto. – Desculpa Adolfo mas afinal decidi que o melhor era ires embora.

Adolfo faz que não com a cabeça.

– O que eu queria era uma boa queca percebes? Uma noite de sexo para desanuviar. Só isso. Com esse disparate, até me tiraste a vontade.

– Acho que sei como te sentes – Afirma Adolfo. – Não é fácil escutar semelhante afirmação. Asseguro-te de que é verdade.

Laura distende os músculos, faz girar o pescoço várias vezes, em rotações amplas e observa-o atentamente.

– Não podes morrer! – Inflama a exclamação. – É o que me estás a dizer? Por favor..

Os estragos produzidos não foram mais do que uma autópsia inclemente. Adolfo já se preparara de antemão para o evento do seu descrédito.

 – Não. – Disse-lhe. – Eu posso, ele é que não. – Apontava com a palma da mão o sítio no peito onde o coração se alojava.

– Ai minha mãe! – Gritava Laura para o ar parado. – Tu bem me avisaste sobre isto.

– Gosto de ti Laura, e vou-to provar. Mas não penses que faço isto com todas. Faço-o, porque gosto de ti.

– Já mo disseste, e agora?

Ele avançou rápido espetando um pequeno estilete oculto, no local exato que a sua mão apontava. Certeiro ao alvo. Permaneceu de pé, sorrindo-lhe.

– Toca-lhe. Vá lá, toca no meu coração.

Laura cruzou os braços e virou-lhe a cara com desdém.

– Nem pensar!

– Toca-lhe! – Ainda batia.

Laura recebeu aquela visão com um entusiasmo estranho. Parecia ditar só para si, o pouco que conhecia da anatomia humana, com tiroteios rápidos de perguntas e respostas. Aquela atenção forçada revelou a Adolfo um bom ponto de partida para lhe cativar o deslumbramento pretendido.

– Só poderá sangrar por uma ferida provocada por um amor verdadeiro. – Intumesceu o peito, confirmando-lhe a ausência do ferimento, mostrando-lhe a carne, ainda à pouco perfurada, que se mantinha intocada pelo metal.

O rosto dela moldou-se pela grandiosidade do que assistira. Uma névoa de incredulidade ainda ali pairava, encolhendo-lhe o sobrolho na falha de credo, mas o resto da sua expressão já cedia à tentação de querer acreditar no que via.

– Porquê? – Perguntou-lhe decidida, ainda que muito a medo.

– Quem sabe. – Disse-lhe ele. – Quem poderá saber de que mistérios se reveste o coração humano? De uma coisa estou certo, não se faz só de músculos, sangue e cartilagens, é muito mais do que a ciência o retrata. É uma porção do nosso desejo, e o meu.. – Fez uma pausa estudada. –é o de encontrar o amor!

Laura, arredada já de receios, aproximou-se com a mão levantada, tocando-lhe no espaço quente daquele pulsar indomável. No instante do contato, um frémito de arrepio apoderou-se da sua mão corajosa, subindo-lhe pelo braço, imparável, possante daquele poder que só um coração que não sangra pode transmitir.

Passaram o que sobrava da noite a planearem o resto das suas vidas. Só uma força assim seria capaz de lhes moldar os destinos no ato de um deslumbre irracional.

by Casimiro Teixeira

2000

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