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“Taken by a Stranger” de Alexia Lopes

 ….

Ela está sentada numa cadeira, tem um olho negro, um ligeiro sorriso e esboça a paisagem. Naquele café ninguém a incomoda, ninguém quer saber da rapariga dos cabelos castanhos no fundo da sala.
– Posso sentar-me? – ele estava intrigado e ela irritada. Não esperou por aprovação, limitou-se a sentar e a ficar a olhar para ela.
– Hey – ele conhece o seu ar de reprovação, há meses que a espia sossegado no outro lado da sala. – Não me lembro de concordar com isto – ela é má, muito má. Ele sorri, “ela é a certa” pensa para si mesmo. Mas certa para quê?
– Tens um pouco de café no teu colarinho – disse bebendo do seu capuccino.
– E tu esqueceste-te de te pentear – disse zangada poisando o caderno na cadeira ao seu lado. Ele sorri e ela não lhe devolve o sorriso.

Eles são dois estranhos, ela uma misteriosa e ele convencido que a conhece, são duas pessoas desligadas da paisagem, sozinhos no fundo da sala. Eles são dois estranhos, atraídos pelo perigo, ele quer conhece-la e ela quer ser quebrada.

– Não consigo evitar – desabafa ele sem lhe tirar os olhos de cima. – se tu não gostas disso pois eu não estarei aqui amanhã

– Ninguém disse que serias rejeitado – diz ela pegando na sua chávena amarela de café. É uma chávena grande, cabem perfeitamente quatro expressos lá dentro, ela devia querer continuar acordada.

Dois estranhos, estão a brincar, ele quer conhece-la, ela quer ser quebrada. Eles vivem à beira da sociedade, não se envolvem com a normalidade. São dois estranhos, um café e uma mesa em comum.

– Vamos recomeçar – ele levanta-se e volta para trás – Importa-se que me sente aqui?

– veja se eu me importo. – ele sentou, mas ela não sorriu.

São dois estranhos, deslocados. Ele quer conhece-la e ela quer ser quebrada. São dois fora do padrão, uma mancha de café numa mesa branca. Ele avança, ela recua. São jogos de sedução entre dois estranhos. Ela coloca uma madeixa de cabelo para trás da orelha e ele repara no anel.

– Casada? – espera pela resposta. Ela ignora-o e pega no caderno de desenho. Salva-me desenha ela no seu caderno preto de desenho. Salva-me de ser sufocada outra vez.
Ela pousa o caderno e olha para ele. – A tua chávena é roxa. – ela sorri e ele também.

Eles são dois estranhos, dois deslocados, uma gota de café da toalha branca. Eles são dois estranhos que se complementam.

Ela rasga a folha do caderno e entrega-a. Ele recebe-a e olha para ela.
– Posso voltar a sentar-me um dia destes?
– Veja se me importo.

“Pega por estranho”, ouvia dizer ao empregado que lhe limpava a mesa. Ela levantou-se e saiu porta fora. Ele já se tinha ido embora há muito tempo.

Eles são dois estranhos, dois deslocados. Ele quis conhece-la e ela foi quebrada.

Passaram-se horas, “Café Muller” continuava cinzento, mas ao contrário de outros dias agora tinha sete pessoas. Os seus corpos vagabundos hesitam nos encontros, as linhas que traçam são circulares, a claustrofobia adensa-se no contraste entre a rudeza do lugar e o cinismo das pessoas. Está praticamente o café desde que abriu excepto uma nova integrante e uma possa de sangue seco que se tornou preto.

by Alexia Lopes

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