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“Café Muller” de Alexia Lopes

“Tudo se tornou rotina e já ninguém sabe porque se está a usar certos movimentos. Tudo o que sobra é uma estranha espécie de vaidade que se afasta cada vez mais das pessoas. E eu acho que deveríamos estar cada vez mais perto uns do outros.” Por Pina Bausch.

É coberto de cinzento e decorado de branco, este café. Não há cores nem figuras que se destaquem. Enchido com mesas, cadeiras e seis pessoas, o café passa assim o seu dia. Os corpos vagabundos hesitam nos encontros, as linhas que traçam são circulares, a claustrofobia adensa-se no contraste entre a rudeza do lugar e o cinismo das pessoas.

Um marido de cinzento e a sua mulher de branco que chora, um adolescente de preto com um maço de cigarros na mão, um velho sentado na mesa ao lado da casa de banho das senhoras, uma mulher de cinzento ao balcão e outro jovem sentado perto da montra.

Eis que entra uma figura, de cabelos vermelhos e olhos verdes, que se depara com este ambiente de desgosto fúnebre.

O que é isto, pergunta, O que se passa aqui, Nada que lhe deva interessar, responde o homem casado virando o olhar para a mulher que continua a chorar com o seu lenço branco na mão. A recém-chegada não descansa e volta a perguntar, O que é isto, o que se passa aqui, desta vez ninguém responde, ela encolhe os ombros e empurra uma cadeira para o chão. Ninguém olhou, ninguém quis saber, ninguém se preocupou muito menos ajudou. Ela suspirou e arrumou a cadeira. Esperou mais um pouco e nada mudou, ninguém falou, a mulher do balcão continuou a lavar pratos, o velho pegou no jornal, a casada não desistiu de chorar e o seu marido não a quis consolar, o jovem da montra não se distinguia do resto da paisagem, era cinzento como ela e assim o quis ser.

A mulher dos cabelos vermelhos mexeu no cabelo e soltou um suspiro, ninguém se importava com o que se passava, ninguém queria saber. Pegou num jornal, era branco, completamente branco, Aqui ninguém quer saber de nada, observou, Mesmo no jornal, ninguém, pousou o pedaço de papel branco na mesa preta e pensou no que estaria errado. Como se pode viver sem se querer saber de nada? Porque tanto chora aquela mulher? E porque se importava ela enquanto que o resto se desinteressa de tal coisa? Não sabia a resposta de tantas perguntas e agora não conseguia pensar melhor nelas.

Levantou-se e chegou ao balcão, Um café por favor, pediu. A de cinzento encolheu os ombros e continuou a limpar o já tão imaculado balcão. A rapariga voltou-se para trás e pegou numa faca, cortou o pulso e deixou o sangue cair no perfeito chão branco. Ninguém se virou, ninguém se importou, a mulher continuou a chorar, a dona a limpar, o marido da outra sem se importar viu o velho morrer e o rapaz desapareceu. Então gritou, gritou tão alto que era capaz de rebentar tímpanos. Mas ninguém se levantou. Ninguém gritou com ela ou a impediu de repetir. Ela continuou e continuou até a voz faltar, quando a voz faltou o mundo ficou ainda mais cinzento, soube então que a esperança de uma sociedade morrera, soube naquele momento que o seu cabelo nunca mais seria vermelho.

…..

Continua

by Alexia Lopes

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