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“O Petróleo Abstracto” de Ivo Ribeiro

 

 

Hoje as chuvas caíram.

 

Em simultâneo e depois dos exércitos opacos,

o mar inundou as ruas numa bravia raiva de orgulho.

 

A terra tremeu. Ninguém pronunciou uma palavra que fosse,

senão uma ou outra movimentação de interesse pela gula

da água pela terra. E ao penitenciarem-se com a culpa

a água era cada vez mais fria e inóspita, cada vez mais água.

Quando te perguntarem porquê,

talvez seja tarde e talvez a tua sombra haverá desejado tombar-se

com os edifícios.

 

Mas entretanto, vamos atravessando as chuvas,

tristes com os retratos do abandono de deus

e temendo os poemas, destruídos,

misturados com a poeira e as pedras

enquanto oleamos as mãos de petróleo

para que não se sinta o sangue.

 

Já parece tão tarde neste mundo de sonâmbulos

que deus deixou os homens lutarem pelas estrelas

até que morressem. Deixou que lutassem por ele

porque não existia. E das frases mal compostas

dos perlimpimpins dos corpos

e da organização do mundo como uma metamorfose kafkiana,

soltou uma irónica gargalhada, fazendo a terra tremer.

 

Hoje as chuvas caíram. Mas dizem-nos os nossos olhos

(grutas prenhas de luz lúcida), que o que realmente estalou

no chão, foram as nossas próprias almas cobertas de mentira.

E quando te perguntarem porquê,

é porque o mar cobriu os nossos pés e nunca a nossa impaciência

de sossego

nos esgotara tanto a garganta.

 

Inconveniente, é os nossos passos que continuam iguais:

esmorecidos na lama, escondidos pelos atalhos,

enquanto as chuvas nos engolem e o tempo emerge brusco na cabeça

e a existência se torna num risco trémulo entre a razão e o desconhecido.

 

E, embora tudo seja tão abstracto quanto o petróleo,

a mim – para alguma surpresa tua – nunca me perguntaram nada

 

 

by Ivo Ribeiro

 

One thought on ““O Petróleo Abstracto” de Ivo Ribeiro

  1. Emotivo, inteligente, comovente e muito, muito critico, diria mesmo… Brilhante!
    Clap, clap, clap!!! Apaludo de pé!
    Gostei muito daquilo q li e do turbilhão q me fez sentir!!
    Não posso deixar de sublinhar a parte q mais gostei:
    “á parece tão tarde neste mundo de sonâmbulos

    que deus deixou os homens lutarem pelas estrelas

    até que morressem. Deixou que lutassem por ele

    porque não existia. E das frases mal compostas

    dos perlimpimpins dos corpos

    e da organização do mundo como uma metamorfose kafkiana,

    soltou uma irónica gargalhada, fazendo a terra tremer.”

    Avassaladora esta tua partilha!
    Um beijinho em ti!
    Inês Dunas

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