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“A Vã Glória de Te Amar” – Capitulo 4 (Parte 3) de Mefistus

 

Num assombro de vivacidade e alheamento do que a rodeava ou do que a podia atormentar, Marta Reis relatava o principio das suas memórias, que teimosamente achara por bem escrever.
Se a inicio recusava-se sequer a abordar o seu passado, com medo dos seus fantasmas recentes, agora que a ponta da caneta escorregava em caracteres precisos e metódicos, ela sentia que ganhava força e energia, no combate ao seu interior mais negro.
Tomando como ponto de partida lógico, o principiar pelo seu mau casamento, discorreu em linhas duras a falsa paixão que, acompanhada por um suspiro saído quase inaudivelmente dos seus finos lábios, “QUE TONTA EU FUI!”, até ao momento de terror em que ia descobrindo que o pretenso perfeito candidato a marido ( nas palavras de seu pai), mais não era que um arrogantezinho, de punhos duros, sem capacidade de argumentação que não fosse num murro disparado á traição, ou num pontapé subtil,que regra geral a atiravam como um pedaço de pano para o chão agora ensaguentado da cozinha.
Alinhando as recordações, primeiro numa folha de rascunho, acendia um cigarro e teimosamente voltava á carga, hesitando entre as palavras, como quem hesita entre caminhos ou ruas.
Tratava-se de se descobrir a si mesma, de procurar aquela Marta que o tempo e a amargura de uma vida não vivida, mas apenas sofrida, escondera.
O ritmo do Sol, acompanhava pela janela o ritmo com que escrevia. Á sua frente, num pequeno cinzeiro improvisado, as beatas jaziam na medida da furia ou da contemplação da autora.
Se o capitulo, ou parte do texto lhe inspirava raiva, esmagava implacávelmente a beata, sem se preocupar de sacudir a cinza e contemplava com ar severo o exterminar do sinal fumegante. Se por outro lado, estava numa fase contemplativa e serena, rodava a ponta de vermelho vivo do cigarro, na berma do cinzeiro, observando os cachos de cinza que tombavam carinhosamente na berma, formando um lastro acizentado.
” No principio de tudo, ele era perfeito. Cativante, terno, meigo, disciplinado. Era aquele homem que sempre tinha a palavra certa, a frase ponderada, a calmia de um mar de verão. Tudo nele, era nesse tempo perfeito. O sorriso aberto e franco ( agora sei que calculado), as unhas impecávelmente bem tratadas, os dedos delgados e macios. Nada nele destoava, quer ele se apresentasse em Bermudas para ir á praia ou piscina, quer se apresentasse mais formal. Era um sedutor nato. Porem reconheço que não era a mim  que seduzia! Ah não, este é o tipo de homem que tem tudo calculado, que tem um plano, que é absorvente em todos os detalhes.
Cedo, esta criatura percebeu que a minha força residia no meu Mundo. E esse Mundo eram os meus pais e meus amigos. A minha vida pessoal, era a minha esfera de oxigénia, onde eu me podia desligar das injustiças de doentes terminais, ou doenças fatais. Ali, entre eles era a Martinha, não a Drª Reis.
Arrisco a dizer que entre eles, eu era na verdade gente!
Como uma lingua de água numa parede dura ele foi se aproximando, procurando ruturas, procurando brechas, onde se poderia infiltrar e assim quebrar a minha defesa, a minha grande muralha do discernimento.
O leitor sabe perfeitamente, que mesmo que tenhamos um grande apreço pelas pessoas que nos são queridas, por vezes ( coisa de Mulher), deixamos escapar frases, ou ideias sobre elas. Frases que inevitávelmente seriam mal usadas e manipuladas por ele, e assim entricheirava-se no meu Mundo, a tal ponto que era a ele que procuravam para os variados convites ou conselhos. Eu?? Passei a ser a mulher dele, mesmo antes de casar. Era aquela que estava com ele.
Subitamente deixei de ser a Martinha, para ser a Marta em alguns casos até, Dona Marta.Sem dar conta, passei a ser uma convidada em casa dos meus pais, em que ele geria as atenções como se fosse o anfitreão.
O sorriso sempre meigo do meu pai, passou a ser substituido por um olhar seco e introspectivo, acompanhado dos mais dilacerantes chavões…Marta, segura este homem, ou, Marta homens como este, há muito poucos…ou, Vai-te fazer tão feliz!
Inevitávelmente casei, ou melhor…me condenei! Não chorei a caminho do Altar, pois talvez interiormente soubesse que iria precisar de uma reserva inesgotável de lágrimas. Casei de branco, sem sexo, sem o ver nu, sem me ter apalpado, sem me ter beijado de lingua…Tenho respeito por ti e pelos teus pais….Seremos felizes, quando casados dermos largas ao nosso amor….Querida, obvio que te desejo, mas é cedo….Pois!
Obviamente que meses mais tarde,já depois de ele ter-me saltado em cima durante toda a lua de mel, de me ter usado e abusado, de nunca me ter explicado o que raio era suposto fazer, descobri que o santo pregara em várias miudas solteiras antes do casamente e ocasionalmente, ainda pregava em altares revestidos de Motel.

“QUE TONTA EU FUI!”, e que covarde seria nos próximos tempos”

Marta reis levantou-se, mirou por alto as folhas escritas e com um sorriso de satisfação, principiou a passar cuidadosamente a limpo para o caderno. esse sim, já sem as marcas de lágrimas que lhe caiam nas folhas de rascunho enquanto escrevia.
Sentia-se leve, livre e acima de tudo principiava a estar em paz consigo mesma.

 

 

by Mefistus

One thought on ““A Vã Glória de Te Amar” – Capitulo 4 (Parte 3) de Mefistus

  1. “Como uma língua de água numa parede dura ele foi se aproximando, procurando rupturas, procurando brechas, onde se poderia infiltrar e assim quebrar a minha defesa, a minha grande muralha do discernimento.”
    Adorei esta metáfora…🙂 Está brilhante a analogia! :))
    Estou a acompanhar esta historia, confesso com grande interesse, ainda bem que surgiu mais um capitulo!
    Um autor que desta vez me surpreende pelo desenvolvimento de um alter-ego de sensibilidade feminina, a tua Marta esta muito real nas fragilidades, nas sensações! Parabéns, clap, clap, clap!
    Beijinho grande em ti!

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