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“Anoitecer” de MBlannco

 

Chamam-me Nanuk, Urso-Branco, o Senhor do Ártico, ou como queiram. O nome não é importante.

Venho de muitos cantos. Vejo sucederem-se as estações desde dias imemoriais.O que conheço como sol é esta miragem alaranjada, que brilha e treme, ocupatudo quanto a vista pode alcançar e banha o solo imaculado sob minhas patas,sustentando os derradeiros vestígios de luz. O céu cobre-se de suas vestes púrpura. Asprimeiras estrelas despertam.

Tenho os olhos marejados de saudade e tristeza. O manto espesso de pelo alvoaquece meu pesado corpo, mas já não me conforta. O coração que um dia conheceu ofogo está frio, tão frio como as imensas ilhas flutuantes de gelo, que me cercam e aprisionam.

Já não tenho a paixão das primaveras para vencer a vastidão gelada eimpiedosa, meu lar, a cada dia mais distante.Já não alcanço o horizonte, esconderijo do mundo, onde o céu abraça o mar, ouonde o mar engole o céu.

Estou cansado.

O alimento torna-se mais e mais escasso, quanto mais o chão, outrora firme, sedesfaz. E a fome devora minhas entranhas, verga meu espírito. O desespero leva-me apercorrer trilhas infindas em busca da presa arredia, que também sofre como eu emeus irmãos.

Meu antigo clã resta quase extinto.

Partiram eles para um lugar longínquo, aquele do qual não se pode mais voltar, osítio dos heróis, o repouso dos vencidos. Eu os vi deixar estes campos, subjugadospela mesma dor avassaladora que esmaga os que compartilham nosso mundo, todosnós – a fome.

A fome é o anjo da morte, atrai-nos, sorri, recebe-nos com seu ofegar ardente. Aúnica barreira entre nossos corpos e seus braços afetuosos é o sangue quente da caçae sua carne fresca, tão raros agora, invisíveis a meus olhos exaustos. Nada mais nosmantém vivos debaixo destas luas sombrias.

Lembro-me de Shaskaati, nosso líder, cuja voz potente podia calar o vento,despir as montanhas de sua mortalha branca. O mais sábio, o mais valoroso entre nós.Lembro-me de Laar, o mais bravo, o melhor guerreiro. A aurora traz-me, àsvezes, sua silhueta majestosa recortada contra o azul diáfano do firmamento, contra onegrume das noites de tempestade, quieto, aspirando o perfume do mar.

Recordações.

Eu vi Laar enfrentar uma matilha de caçadores ferozes, lutar como um Titã,perecer com glória.

Eu conduzi Shaskaati às montanhas, eu o vi deitar os olhos luminosos sobremim, grato por ter-me ali, ao lado dele, uma vez mais, antes da longa travessia para aregião dos sonhos.

Lembranças.

Ou não.

Invenções de um velho e esquecido Nanuk, talvez.

O pequeno animal que abati semanas atrás emprestou-me algum alento. Paraque não seguisse os que se foram, ainda. Um pouco tempo mais. Para que eutestemunhasse o lento fim desta época e de suas pobres criaturas, indefesas diante danatureza implacável e hostil, antes acolhedora, mas que, agora, a pouco e pouco, nosarrebata e aniquila.

Vejo um de nós cravar os dentes na foca ligeira.

Vejo uma raposa solitária, perdida de rumo, abandonada nas imensidões gélidaspara cair também, para ir-se com o ocaso.

E espero por outro amanhecer, certo de que as horas se apressam e se esvaem,dizendo-me que breve chegará o momento de recolher-me a meu sono invernal, doqual não voltarei, não desta vez, tão faminto e fraco.

Não lamento nem me indigno.

A vida me foi leve por tantas eras quanto as forças da criação assim o permitirame, se o momento da despedida se aproxima, se ouço o chamado selvagem dasplanícies de prata, alegro-me, aceito meu destino.

Vou para junto de meus ancestrais, minhas garras afundarão em outras planícies,tão amadas como esta.

Ou, quem sabe, encontrarei meus outros irmãos, os que habitam um reinomisterioso, muito além de onde estou, e se escondem ao abrigo de densas florestas.

Ouvi rumores de sua existência.

Existirão, eu penso.

Não temo a morte e seu anjo guerreiro. Morrer é uma outra viagem, uma outraaventura. Em meu lugar, outros nascerão, e deles se contará outra história, ou amesma. Não sei. Não importa. Os Deuses têm compaixão por suas criaturas,imperfeitas e efêmeras como são. É a verdade.

Seja como for, o que foi escrito, será cumprido. É o que tenho a dizer aos que estão por vir.

E meus descendentes igualmente não haverão de sobressaltar-se com asinsanidades do mundo, nem com as apreensões e dúvidas dos humanos, incansáveispredadores, que nos perseguem sem pesar. Cobiçam nossa pele, expõem-nos comotroféus. São tolos. Já estávamos aqui antes deles e aqui continuaremos, com ou semeles. Conhecemos bem os humores do Universo caprichoso e inconstante.Não temos os sonhos vãos e as decepções dos homens, porque aceitamos ajornada como ela é, sobrevivemos às intempéries e às tragédias do caminho do modoque nos é permitido. Compreendemos os limites que esta forma animal nos impõe.Acompanhamos o passo e o coração do mundo e não nos afligimos, porquesabemos que nada sobre este chão é definitivo ou imutável. As mudanças assaltamnosa todo segundo, por mais imperceptíveis que pareçam aos olhos inexperientes denossos algozes. Se nos adaptamos, prosseguimos entre os vivos, se sucumbimos,morremos.

Devo retirar-me então, o crepúsculo tomba como um véu de luto. E na incipienteescuridão, apesar de tudo, posso ainda encantar-me com a beleza a meu redor. Minha alma jaz contente.

A fome aumenta, manda-me um último aviso, mas há muito parou de fustigarmeu ventre.

Longe, farejo a ameaça de meus predadores, ouço-lhes os gritos e uivosfuriosos. Estão perto agora. Não os condeno. Famintos como eu, espreitam, aguardamminha derrota. Mal sabem eles que não lutarei, nem poderia. As forças me faltam.Solto meu derradeiro urro.

Para intimidar meus inimigos, enganá-los, fazê-los crer que estou pronto para ocombate, instá-los a seguir com mais cautela.

Percebo a presença da sombra, acercando-se. O tempo esgota-se para o Cavaleiro dos Icebergs, o Andarilho.

Meu espírito está apaziguado, porém. Sou o que sou. Nem em meus piorestemores, nem por um instante, eu trocaria de lugar com qualquer um deles.

Eu sou Nanuk, o Senhor do Ártico.

 

 

by MBlannco

 

2 thoughts on ““Anoitecer” de MBlannco

  1. Amei o ursinho, lindo, lindo, lindo! Sou louca por esses ursos brancos! Obrigada pela divulgação.
    VI que houve junção de algumas palavras. Li e reli o texto várias vezes, mas acabamos viciados nele. E erros de digitação escapam (he, he)
    Um beijo grande, amiga.
    Quando quiser, mando outras histórias. É um prazer colaborar. Maya.

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