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“A Boneca” de Cátia Inês (4º Capítulo, ÚLTIMO)

 

Passou um ano desde a minha pequena, grande descoberta e eu ainda não tinha contado a ninguém este segredo. Por outro lado, também não o queria contar, não queria pertencer ao “grupo” de pessoas que falavam com bonecos e “coisas”. Mas depois de muito pensar neste assunto, ganhei coragem e quando estava a jantar com a minha família contei-lhes.

A minha mãe começou-se a rir, juntamente com o meu pai e o meu irmão mais velho. Depois o meu pai disse-me:

– Filha, já não estás na idade dos disparates. Já devias saber destinguir a realidade da fantasia. Não devias brincar com bonecas, devias preocupar-te com o teu futuro.

Mas eu não me dei por vencida e argumentei:

– Pai, eu estou a dizer a verdade! Nunca tives-te um brinquedo favorito, um brinquedo que quando brincavas com ele, parecia que  ele falava, e o tempo parava… ?

De repente o meu pai, a minha mãe e o meu irmão “deram-me ouvidos” e eu realmente senti que eles acreditavam em mim.

A partir desse dia eu já não era a única a saber o segredo na minha casa e aos poucos e poucos fui transmitindo os ensinamentos da Vanessa ás pessoas. Primeiro aos meus amigos, que contaram a mais amigos, que contaram a mais amigos, que contaram aos pais, que contaram a outros pais … … …

E assim estes ensinamentos foram transmitidos e passados de boca-em-boca, até que um dia tocaram à campainha de minha casa.

Ainda era cedo, para aí 9 da manhã, por isso eu ainda estava de pijama. Vesti o roupão vermelho e calcei as minhas pantufas em forma de coelho para ir ver quem era.

Era um senhor vestido à “pipi”, de fato e sapatos envernizados. O que é que ele queria? Se calhar tinha-se enganado na porta. Por isso ainda a esfregar os olhos perguntei:

– Bom dia, posso ajudá-lo?

– Sim pode, é aqui que vive a menina Marta Aguiar ?

Eu ainda fiquei mais curiosa. Um senhor todo “engravatado” à minha procura? Que quereria ele? Bem, o melhor a fazer era perguntar, por isso … :

– Sim, sou eu, que deseja ?

– Bem eu venho por parte da televisão nacional e queria fazer-lhe uma proposta.

A mim? O que seria?

– A sério? Entre, entre – disse entusiasmada – quer beber ou comer alguma coisa?

– Não, obrigada – respondeu o senhor com uma voz forte que demonstrava confiança – estou bem. Eu chamo-me Henrique Oliveira e queria saber se a menina Aguiar, estaria interessada numa reportagem …

Tratou-me pelo apelido, como o meu professor de história, o que defenitivamente significava respeito, mas agora a reportagem… porquê uma reportagem ? Entretanto os meus pais também já tinham acordado e sentaram-se à minha beira a ouvir aquele senhor que tinha aparecido do nada a falar de uma reportagem.

– Uma reportagem? Mas porquê ?

– Porque achamos que a menina tem muito para ensinar ao povo português e tem divulgado a sua palavra muito bem …

Estava a ficar envergonhada, afinal as ideias não eram propriamente minhas… eram da Barbie. Por isso eu respondi:

– Bem, sinto-me lisonjeada, mas tenho de falar primeiro com uma amiga …

– Está bem, então eu amanhã volto para saber a sua resposta. Obrigado pelo seu tempo e desculpe tê-la acordado. Senhor e senhora Aguiar, continuação de um bom dia.

Dito isto, saiu e desapareceu num carro que impunha tanto respeito como o seu dono.

Os meus pais ficaram radiantes e disseram logo para eu aceitar, que era uma oportunidade que só se tinha uma vez na vida, mas eu disse-lhes:

– As ideias não são minhas, são da Barbie e vocês sabem, tenho de falar com ela primeiro.

Por isso corri até ao meu quarto, acordei-a com jeitinho (sim, eu acordei-a, porque os objectos também dormem) e disse:

– Barbie, amiga, acabou de sair um senhor de nossa casa que quer fazer uma reportagem sobre as tuas ideias, aquelas que tu me ensinas-te, mas ele pensa que elas são minhas …

Então ela pôs um sorriso simpático e disse:

– As ideias são tuas, porque eu não existo.

– Claro que existes. Estás a falar comigo. Mexes-te, dormes …

– Como tu disses-te há uns tempos atrás, eu não passo da tua imaginação e eu vou ter de voltar a ser “inanimada”, a minha missão está cumprida.

– Missão? – perguntei eu baralhada, de que estaria ela a falar?

– Sim, missão. Eu só tinha de fazer-te acreditar que tu ainda eras criança, e que dentro de ti havia imaginação. Para todos os efeitos eu nunca fui mais do que uma boneca.

Depois de dizer isto, trepou para o meu ombro e deu-me um beijo na bochecha com os seus lábios pequeninos e ficou estática.

Eu peguei nela e coloquei-a na minha secretária. Aceitei dar a entrevista e a partir desse dia a minha vida mudou.

Comecei a dar entrevistas, atrás de entrevistas, escrevi um livro, passei a não ter tempo para mim, embora mesmo assim todos os dias arranjava um tempinho para falar com a minha boneca, mesmo sabendo que ela já não me podia responder, eu sabia que ela me ouvia. Todos os dias penteava e arranjava a minha Barbie, a mesma que quando eu andava preocupada e sem imaginação me voltou a pôr o brilho de criança no olhar. Aquele brilho doce e inocente das crianças.

Agora que já sou uma mulher, continuo a falar com ela, e não me preocupo com o que os outros podem pensar. A maior parte deve pensar que sou maluca, porque onde já se viu um adulto a brincar ás “casinhas” ? Se eles ao menos parassem para olhar mais de perto para a minha boneca iriam vê-la a piscar o olho, afinal como eu já tinha dito, ela não é uma boneca qualquer, é uma Barbie! Ela é a minha Barbie!

 

FIM

 

By Cátia Inês

 

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