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“Uma forma especial de te amar” de Ennia

 

 

Uma desilusão não é fácil de ultrapassar, principalmente quando é das que envolvem o coração. Demora o seu certo tempo. A última que tive não foi excepção à regra.

Ainda andava na escola, com as ideias por assentar. Na altura não andava bem e foi a pessoa em quem mais me apoiei. Confesso que não foi a decisão mais acertada, mas na altura pareceu-me o caminho certo a seguir. Nunca dissemos que namorávamos, nem sequer utilizávamos essa palavra. Estávamos juntos e fazíamos para que ninguém soubesse. Andava iludida e fui influenciada por certas atitudes. Havia alturas em que não estávamos juntos, sempre sem saber se continuávamos ou não com o que tínhamos. Quando acabou, um ano depois, sentia-me pior do que estava inicialmente. Sentia-me usada por alguém que pensava ser o meu refúgio. Deixei de gostar de mim; deixei-me levar pela vida sem me aperceber das coisas que perdia pelo caminho; deixei de ter interesse no que quer que fosse. Meses depois, aquela dor começou a diminuir, até desaparecer. Não recuperei de todo.

Tinha dito a mim mesma que não voltaria a sofrer, que jamais queria sentir aquele sufoco no peito por alguém. Não queria tornar a sentir o desejo de tocar em alguém, mas na realidade, não poder; não queria sentir a falta de alguém, mesmo estando sentada ao seu lado. Prometi que não voltaria a apaixonar-me, sem ter a certeza de que estava preparada para enfrentar e esquecer uma possível desilusão.

Resultou.

Durante bastante tempo, algo como três anos, tudo o que tive foi umas meras e passageiras atracções. Nada mais do que isso, pois não o permitiria. Não me fez bem, não gostava do que via, não gostava do que era.

Começar a trabalhar fez-me crescer, fez-me interpretar uma grande parte das coisas de forma diferente. Fez-me pensar nestes anos que perdi por andar a dormir, por pensar que seria o melhor para mim estar sozinha.

Errei. Mas para se aprender algo completamente, temos de errar, nem que seja uma única vez.

Decidi mudar o que não gostava, arrumar assuntos que ainda estavam pendentes, libertar aquele peso que sentia.

Aos poucos, deixei de me importar com o que as pessoas pensavam de mim, com o que achavam que eu devia fazer. Comecei a escutar aquela vozinha interior que tantas vezes reprimi e ignorei.

Passei a sentir-me bem comigo mesma; a gostar mais de mim; a apreciar e a destacar as minhas qualidades, em vez de salientar os meus defeitos. A minha auto-estima melhorou. Deixei de me preocupar primeiro com os outros e comecei a colocar-me mais vezes no topo da lista. Passei a tirar partido do momento; a dar-me mais valor; a aproveitar e gozar melhor a vida; a fazer coisas que realmente me dão prazer e que me fazem sentir bem.

Aos poucos, o meu caminhar tornou-se mais seguro. Esta mudança deu-me a confiança de que tanto precisava e que até agora ninguém me havia conseguido dar.

Os muros que, em tempos, construí à minha volta começaram a cair lentamente, sem dar luta, sem qualquer barulho.

Foi quando comecei a ver-te.

Já tinha reparado em ti. Mas, não sei. Não fiquei com uma impressão muito boa. Achava-te convencido, vaidoso, não sei. Mas nem sequer voltei a preocupar-me com isso.

Desde que passamos a estar mais próximos um do outro, algo modificou. Eu estava mais descontraída e passei a dar mais atenção a certos pormenores. Via-te várias vezes e isso de certa forma inquietava-me. És bonito, atraente, emanas uma confiança espectacular, o teu caminhar mostra segurança, transmites aquela energia de quem saber o que quer. Sempre pensei que fosse uma atracção, algo passageiro. Não dei importância. Com o tempo, pensava eu, essa atracção acabaria por desaparecer. Porém, foi-se intensificando a cada dia.

Sem querer que reparasses, observava-te sempre que me deslocava até à secretária ao lado e enquanto falava ao telefone, apreciava certas expressões tuas. Posso até afirmar que algumas delas permanecem na minha memória.  Às vezes, estava tão distraída que não escutava metade do que estavam a dizer, do outro lado do telefone. De manhã, ansiava pela hora a que chegavas, só para te ver passar pelo corredor, sentir a tua leve e rápida passagem por detrás de mim. Dava por mim a escutar a tua voz, calma, forte, serena; a ouvir o teu riso alegre e engraçado.

Dava por mim a pensar algumas vezes em ti e de um dia para o outro, passei a evitar sair do meu sítio, quando pressentia que não estavas no teu lugar, achava isto estúpido, não percebia a razão que me levava a fazer isto.

O teu sorriso encantador deixa-me derretida. Sempre que te vejo sorrir, tenho um impulso enorme e quase incontrolável de sorrir também.

Por algumas vezes olhei-te nos olhos, castanhos, brilhantes, meigos, sedutores. Senti algo, uma sensação estranha na barriga, na altura não entendi o que era. Talvez o stress, ou nervos por causa do trabalho, era a única explicação que encontrava para aquilo, naquele momento.

Comecei a passar por ti mais vezes, (ou a reparar mais em ti), e sempre que isso acontecia, lá estava de volta aquela sensação agradável e familiar na barriga. Agradável….

Comecei a unir os pontos deste desenho que não queria ver.

Aquelas “borboletas” só apareciam quando passavas ou estavas perto de mim, quando te olhava nos olhos. Embora não estivesse pronta para o admitir, a verdade é que gostava de ti.

Porém a consequência dessa percepção não tardou a chegar. Tímida por natureza, sempre que gostava de alguém, só olhava para a pessoa, por breves segundos, mas sempre quando sabia que estava a olhar para mim.

Tu, ao contrário de todos, tens um efeito enorme sobre mim. Não sei porquê, fico intimidada, bloqueio. Olho-te em segredo, passo por ti e não mostro um sorriso. Quero fazer o contrário. Tento, mas não sai nada direito. Sei que olhas para mim, reparo nisso, embora desconfie que penses que sou “cega”. Quero olhar para ti, olhar-te nos olhos, mas não acontece assim. É quando desvias o olhar, que eu te observo.

Afectas-me de tal forma que, quando te vejo e estou a falar, fico desconcentrada, tropeço nas palavras que saem e baralho tudo o que queria dizer. Tenho de parar. Limpar-te temporariamente da minha cabeça e pensar duas vezes antes de conseguir falar de forma precisa. Sempre que sei que olhas para mim, fico corada.

Não sei qual é o poder que tu possuis, mas tens o dom de me deixar no limite da minha sanidade. Pois desejo secretamente conhecer-te, ser o teu lado extrovertido mais de perto, apreciar a tua simpatia. Encantaste-me. Exerces um poder sobre mim e nem sequer fazes ideia disso.

Às vezes penso em como será o teu abraço; como será conversar contigo, seja que tema for; qual será o sabor da tua boca; como será o teu cheiro, o teu toque.

 

Sinto-me desorientada, perdida, só de olhar para ti.

by Ennia

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