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“O Tempo que Demora o Tempo”- (1º Capítulo “Um novo começo… “) de Daniela Henriques

 

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A chuva havia dissipado e o sol começara a brilhar. Para Filipa, contudo a manhã tinha começado igual a todas as outras manhãs. Com o toque horrível do despertador, num zumbido metálico a marcar as oito da manhã, originando o habitual grito de fúria dela ao acordar.
Se havia coisa que ela gostava, era de dormir bastante, ficar naquela espécie de limbo, entre a razão e o coração! Acordar cedo era pois para ela, um horrível tormento, que contagiava negativamente o seu humor, marcando-o de um cinzento praguejar.
Perdida nos pensamentos, ainda a clarear as ideias para essa semana que se iniciaria, Filipa empurrou o cobertor, que a protegia das diabruras das noites frias e levantou-se num ápice, tirando a Tee-shirt que vestia, deixando-a cair prontamente no chão, ficando só de calcinhas vermelhas.
Um sorriso de felicidade estampou-se nos seus lábios e após esse violento acordar o seu momento de prazer. Basicamente ela amava andar semi despida pela casa, sentindo desta maneira uma liberdade interior e exterior. ” – Devia ter sido índia.” – Pensou.
A sensação de Liberdade era para ela, o seu maior vício e simultaneamente o seu maior prazer. Foi por tanto gostar de se sentir livre, que há cerca de um mês tinha passado a sozinha, deixando para trás a partilha da casa com os pais, que por sinal não se davam muito bem. Cansando-se de constantes discussões Filipa mudou basicamente a sua vida num só dia. Deixou a aldeia onde vivia, pôs fim a uma relação de 3 anos onde já não sentia nada, aliás percebera que nunca amará aquele rapaz. Ainda não sabia de que cor era o amor! Desistiu também do Curso de Comunicação e Relações Públicas da Universidade de Coimbra e entrou no mercado de trabalho. Os tempos não eram fáceis e os pais muito julgaram o facto de ela abandonar a aldeia e ir morar sozinha, para a cidade de Coimbra. Mas consideravam que seria apenas uma fase e no máximo de três dias estaria em casa por falta de dinheiro. Mas Filipa não agia sem pensar e ao sair de casa tinha basicamente tudo pensado. Procurou trabalho numa rádio onde por várias vezes tinha colaborado como comercial. Felizmente, visto que estavam a necessitar de uma comercial a tempo inteiro e conhecendo Filipa e sabendo que apesar dos seus 20 anos ela era uma jovem ambiciosa e empenhada, obvio que o emprego era dela. A área comercial não era propriamente a área que ela mais gostava, preferia antes a área de comunicação, mas não podia hesitar.
O ponteiro do relógio do quarto roçava nas 9 horas, como sempre, Filipa estava atrasada, era uma marca dela, atrasar-se quase sempre, sobretudo quando decidia tomar banho pela manha, demorava sempre imenso tempo, pois no banho ela aproveitava para relaxar e perder-se em pensamentos, passando o tempo. Muitas eram as vezes que perdia a noção do tempo. Filipa não era uma jovem muito bonita, nem tão pouco se achava sensual, era uma jovem simples, que mal usava cremes ou maquilhagem. Sentia-se bem apenas com um risco preto nos olhos a realçar a cor esverdeada dos mesmos. Para ela era o quanto bastava. Detestava ter que usar fatos e sapatos, gostava de andar sempre simples e confortável com umas calças de ganga e uns ténis, mas naquele dia, tinha que ir para o trabalho “pipi”, visto que ia ter uma reunião com a administração da rádio.
Num passo acelerado sai de casa em direcção ao carro, com 15 minutos de tempo para chegar á reunião. Era basicamente o tempo que todos os dias demorava. Filipa sabia que na rádio gostavam de si e que andava a fazer um bom trabalho, já a conheciam a algum tempo e sabiam que ela era uma jovem ambiciosa e empenhada. Pelo caminho não pensara uma única vez qual seria o motivo desta reunião que iria ter basicamente toda a equipa reunida, ia sim, escutando com atenção no rádio, uma das estações nacionais, os desenvolvimentos da vida politica no pais, até que após a informação o locutor da rádio, inicia um programa de entretenimento: “Bom dia! Sorria, sorria que hoje a manha está perfeita com este sol brilhante e quem sabe se hoje também não será um dia perfeito para os caros ouvintes. Quem sabe se hoje não descobre algo bom que mudará a sua vida para sempre?!” – ao ouvir isto Filipa corresponde sorrindo e fica a pensar no que poderia mudar a sua vida para melhor. Ultimamente sentia-se só, vivendo única e exclusivamente para o trabalho. Todos os dias a mesma rotina, as mesmas preocupações, todos os dias a mesma coisa. Filipa sabia o que lhe faltava… precisava de sentir útil, para além do trabalho, que alguém sentisse orgulho dela, precisava que alguém a fizesse gargalhar sem parar, precisava de um bom motivo para todos os dias acordar… precisava que alguém a fizesse sentir viva!
Seria essa a manha de uma quinta-feira do mês de Maio de 2009, um inicio de algo novo para Filipa?

 

 

By Daniela Henriques

One thought on ““O Tempo que Demora o Tempo”- (1º Capítulo “Um novo começo… “) de Daniela Henriques

  1. Uma suave estreia em género de conto. Mais um caminhar seguro de um talento á espera de desabrochar.
    Um enredo bem conseguido, com frases bem limadas e bem arquitectado.
    Uma boa aposta quer da autora , quer do EJE.

    Para acompanhar sempre!

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