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“Como uma lágrima no teu olhar! “- 1º Capitulo (Parte 1- ESTREIA) de Conde Carvalheiro

 

 

João Paulo entrou no majestoso edifício cinzento, dobrando cautelosamente o Jornal de Negócios debaixo do braço esquerdo e apertando nervosamente a alça da pequena pasta negra de executivo, a imitar couro, dirigiu-se para o elevador, evitando como sempre, fazia a lenga-lenga do recepcionista ao serviço da Sharon.
Nunca compreendera bem, porque carga de água o homem fazia questão de o enervar com questões fúteis, geralmente de futebol ou de algum cabeçalho que decorara à pressa num matutino da cidade.
Na verdade enervava-o que cada indivíduo que tivesse sempre uma opinião, mesmo sobre temas para os quais não estavam preparados para discutir.
Com quarenta e dois anos e duas filhas nos melhores colégios da cidade, João Paulo estava nervoso com a crise financeira que toda a Europa atravessava.
Sempre fora um homem sem medo, viciado no trabalho e bastante ambicioso. Construira um incrível império no mundo da banca, mas subitamente e sem aviso a redução de custos e pessoal atingira  até então intocável economia da JP Simões.
Sempre fora desprendido de vida familiar ou afectiva. Para ele, o que realmente o movia era a ânsia de negócios, a ambição da bolsa, o gosto pelo risco.
A mulher, a casa e as filhas eram apenas protocolo exigido pela sociedade. Caprichos para serem apresentados nos jantares de negócios e de amigos.
Em contrapartida a velocidade com que se enrolava com as secretárias do seu gabinete, aumentavam na proporção do risco.Q uanto mais ousado e delirante fosse, mais ele se rendia à aventura.
Nesse particular dia, esperava-o no décimo quinto andar uma importante reunião executiva com vista à obtenção de mais um negócio.
Mas este negócio era demasiado importante para ele. Vendo a Europa a flutuar numa maré de instabilidade, socorria-se agora do mercado chinês, e procurava à viva força singrar no mercado Asiático.
No fundo João Paulo sabia que não estava preparado para tal reunião. O consumo excessivo de cocaína numa festa na noite anterior retirava-lhe agora a boa disposição e a lucidez necessária para efectuar um bom negócio.
O bip do elevador soou, alcançado o piso pretendido e sem demoras, dirigiu-se ao seu gabinete. Ansiava por um café e uma garrafa de água mineral, para repor alguma lucidez ao seu espírito.
Consultou o seu relógio de pulso, com o mostrador digital e sorrindo, percebeu que ainda teria vinte minutos.
Nesse exacto momento,Ramiro um jovem perdido no submundo do crime não organizado, seguia atentamente o casal chinês que avançava à sua frente.
Ramiro havia perdido os pais aos doze anos e desde então fazia o que podia para sobreviver. Sempre se considerara esperto o suficiente para fugir de ligações com gangs e a tia que tão fervorosamente o acolheu, só o pretendia para escravo doméstico e pequenos biscates. Ramiro sentia que merecia mais que isso e um dia , fugiu pela janela e rumou aquela cidade a fim de singrar. Tudo valia a pena para ele, desde que fosse dono do seu Destino.
Hoje com vinte e dois anos feitos, ele já havia feito de tudo, assaltado carros , roubado carteiras, violado correspondência, e esperando os ” betinhos” à saída da escola para se apropriar de telemóveis e “trocos”.
Sempre se tinha sabido esquivar da polícia, da prisão e outros destinos e para isso, mantinha-se sozinho, sem ponta onde o pudessem pegar.
Ramiro seguia agora num passo curto, concentrado na mala de negócios do pequeno Chinês. Havia algo naquela mala que lhe despertara a atenção e sendo o propriétario de outro País, primeiro que conseguisse apresentar queixa ele já estaria longe.
Num gesto confiante, ergueu lentamente o queixo, aproximando-se a passos largos do alvo e aproveitando que ele passava no último entroncamento, na esquina do grande prédio, Ramiro achou que era a oportunidade certa.
Em sentido contrário, caminhando calmamente na berma do passeio Rui Amorim permanecia atento no jovem que seguia o casal chinês. Durante anos ele fora treinado para interpretar sinais faciais ou estudar movimentos hostis. Isto porque durante anos, ele fora um criminoso, até uma rótula desfeita por uma bala ter motivado a sua reforma prematura.
Um sorriso de incredulidade estacou no rosto barbeado e moreno de Rui que passando a bengala para a mão esquerda, aguardou uns segundos até estar quase de lado com o jovem e como um jogador de futebol americano, no exacto momento em que o jovem iniciava a corrida em busca da pasta, ele bloqueou-lhe o caminho atirando-o com alguma força ao chão.
Perante a incredulidade do jovem, Rui sorria e atrás dele como por magia, o Chinês encontrava-se de arma em punho, rodeado por dois seguranças que o jovem não havia visto.
Como se tivesse acabado de acordar de um sonho, os olhos de Ramiro estacaram surpresos nos de Rui:
-Peço desculpa meu jovem, mas não o vi. Desculpe se o magoei!
-Podia ter-me magoado a sério. – Inquiriu Ramiro um tanto confuso.
-Pois podia meu jovem. Peço que me desculpe, sou um velho coxo, que mal se segura em pé.
Prontamente o velho senhor estendeu a mão ao jovem, enquanto que o Chinês, respirando fundo por ter achado que fora um acidente, guardou a arma rápidamente, sendo prontamente seguido à distância pelos seguranças.
Encarando de novo Ramiro, Amorim sorriu e soltou entre dentes:
-Louco, achavas que eles não estariam armados?
-Quem é você?
-Um amigo.
-Eu não tenho amigos!
-Pois acabou de ganhar um.
Ramiro não conseguia desviar o olhar daquele ser sereno e afável:
-Como sabia que eu ia tentar algo?
-O seu corpo me disse!
-Como é isso possivel?
-Experiência. Algo que teremos que praticar.
-Teremos? Ouça lá, mais devagar com isso. Não quero parceiros.
-Ah pois não. Um parceiro contigo seria um suicídio.- Rui pausou uns segundos, alisando a bengala- Você precisa é de um Mestre e eu estou disponível.
-Está louco, só pode!
-Vejamos, ia ser baleado, talvez morto por um punhado de papéis de qualquer negócio que até pode ser importante. Não me parece um grande saque.
-Balelas. Eles não iam armados por isso.
-Oh, mas eles andam sempre armados. Shung Lu Fat anda sempre armado, já devia saber isso.
-Xunga o quê?
Rui Amorim riu abertamente e colocando amigavelmente a mão no ombro do jovem convidou:
-Venha, vamos tomar um copo e ver se esse ombro pára de doer.
-Mas como sabe que meu ombro…
-Elementar meu caro, elementar!
Ramiro sorriu e acompanhou o sujeito na direcção oposta do grande prédio cinzento.
Do outro lado da estrada dentro do carro patrulha, Ana Guedes assistira à cena estupefacta e comentava com o seu colega de giro:
-Diabos me levem se aquele velhote não é o raposa! Impressionante a forma como ele derrubou aquele jovem, mesmo acidentalmente.
-O raposa? Referes-te ao ladrão profissional de jóias?
-Ex ladrão, segundo o que ouvi.
-Pois, essa figura não existe. Um ex ladrão…só no cemitério.
Ana meditou uns segundos e sacudindo a cabeça negativamente, como que para afastar um receio, sorriu:
-Vá, vamos andando que o chefe hoje deve estar fulo.

 

By Conde Carvalheiro

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