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“Dançando sobre as cinzas”,Capítulo III (parte 1/2)- “Até que a morte nos separe…”

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Há um estranho conforto na despedida, um formigueiro tépido que nos abraça por dentro e nos enlaça no horizonte de alguém que nos pertenceu ou faz pertencer, é como se o nosso micro-universo se expandisse, por tempo indefinido, violando apaixonadamente a bolha de outro alguém…

Mas há despedidas que nos arrastam com elas, nos rasgam a carne da alma, nos consomem e nos tornam errantes de nós próprios como se nos perdêssemos para sempre.
Foi numa dessas despedidas que Cármen teve a certeza que a sua vida nunca mais seria igual, não sabia aceitar aquele adeus, aquele fechar de porta e as paredes do seu mundo tremiam, ameaçando ruir a qualquer momento.
Em segredo desejava morrer, todos os dias, porque a dor que a comia por dentro era cada dia mais insaciável…
Haviam o Gonçalo e a Margarida, mas ela, secretamente, desejava ser egoísta o suficiente para se matar sem ter de se preocupar com eles e muitas vezes pensava que, provavelmente, estariam melhor sem ela, até porque ela quando estava com eles ou estava a chorar, ou a dormir, ou drogada a olhar num vazio imenso…
Margarida precisava de atenção mas ela nem conseguia olhar para ela, porque tinha os mesmos olhos de Martim, aqueles olhos que nunca mais veria e Gonçalo à noite nem se encostava a ela o que a incomodava por um lado e aliviava por outro, porque haviam dias que o cheiro dele lhe dava vómitos, tresandava a amor e o amor para ela tinha morrido naquela cama de hospital com Martim. Desejara tanto Martim, tanto…
Hoje tinha sido mais um dia igual aos anteriores, Gonçalo fez o almoço, levou Margarida a casa da avó para passar um fim de semana menos complicado e voltou para casa, sabia que Cármen ia estar no sofá, imóvel, alheia a ele, alheia a Margarida, alheia a tudo…
Chegou a casa. Ligou a t.v. e perguntou-lhe:
-Queres que deixe aqui, amor?
Cármen olhou para ele com o olhar completamente gelado e nem respondeu…
Ele suspirou e fez zapping ao acaso, sem se conseguir concentrar em nada, aquele silencio, aquele olhar, aquela situação, interminável, davam cabo dele…
-Podias ao menos tentar responder-me, de vez em quando, sabias?
Cármen nem se esforçou para voltar a olha-lo, sentia em si um misto de desinteresse e inércia que lhe desarticulavam as palavras antes de se formarem na boca.
Gonçalo atirou com o comando para o sofá dela e gritou:
-EU ESTOU AQUI CÁRMEN, EU TAMBÉM SINTO A FALTA DELE. A MARGARIDA TAMBÉM SENTE E A TUA FALTA TAMBÉM.
Carmen elevou os olhos e encontrou os dele, ele estava de pé e tremia dos nervos, ela queria chorar, gritar, mas em vez disso desviou novamente o olhar e permaneceu em silêncio…
Gonçalo não aguentou mais, saiu da sala, agarrou as chaves do carro em cima da sapateira no corredor e bateu com a porta da rua.
Carmen, estremeceu por dentro… Ele ia-se mesmo embora?
Levantou-se à pressa do sofá, nem dera pelas lágrimas que já a maquilhavam de sal, tinha de o abraçar…
Ele ia-se mesmo embora??? – Os pensamentos martelavam-lhe bigornas de angustia…
Correu para a porta, abriu-a começou a descer as escadas, sem se lembrar que estava de cuecas, de meias e com uma ridícula t-shirt vermelha com a frase: Sou magra porque faço todos os dias!!”, que tinha sido oferta de uma campanha qualquer de uns cereais de fibras.
Descia as escadas, freneticamente, saltando os degraus de dois em dois e derrapando com as meias e gritou:
-GONÇALO ESPERAAAA…
Já perto da porta da rua, ele parou, vermelho, desejando que ela não estivesse a correr escadas a baixo, não queria virar-se e quase podia jurar que a ouvia saltar de meias, pelo baque seco que se aproximava a grande velocidade, numa cadência compassada e acelerada. Virou-se… Lá estava ela, lavada em lágrimas, agarrada ao corrimão do ultimo lance de escadas, ofegante, desesperada, a olhar para ele, a soluçar o nome dele…
Abraçou-a e disse:
-Eu ia só comprar tabaco, amor…

 

By Inês Dunas

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