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“Dançando sobre as Cinzas”, Capítulo II- “Gosto do sabor da tua pele…”(parte 1/2) de Inês Dunas

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-Foge Isabel… Foge, minha querida…
E ela fugiu, correu com todas as forças que tinha, enquanto tentava entender o que se tinha passado, Raul, sempre fora seu amigo, mas os olhos dele estavam estranhos… De todos os namorados da mãe, Raul, sempre foi o seu preferido, brincava muito com ela, fazia-a rir muito, enchia-a de cócegas e de beijinhos, constantemente…
-Deste gosto muito mamã, não mandes este embora…
Mas a mãe, com o desinteresse que lhe era característico, respondia-lhe com frieza:
– O Raul não é teu pai, não gosta de ti, não quer saber de ti, um dia vai embora como os outros e é assim mesmo que tem de ser. Não tens pai, é assim mesmo, nunca será diferente.
Enquanto corria desalmadamente, aquela voz doce voltou a soar nos seus ouvidos, não sabia de onde vinha, mas sabia que devia seguir as instruções à risca, Raul assustou-a e a voz avisara-a para fugir, desde o principio…
-Estas a salvo Isabel, calma, respira fundo… Podes parar de correr, estas a salvo…
E Isabel parou, deixou-se cair no chão, exausta de joelhos… As lágrimas começaram a lavar-lhe o rosto rosado e transpirado…
Raul também estava transpirado, cheirava a suor enquanto a agarrou em cima da cama, por causa dela todas as formigas estavam mortas… Quando ele se meteu em cima dela deve ter esmagado todas e Isabel chorou por ter morto as suas amigas… Ainda sentia o cheiro dele nos braços…
-Gosto do sabor da tua pele…
dizia-lhe ele enquanto lhe lambia a perna, do joelho para cima, ao principio, Isabel rira-se muito, aquilo fazia-lhe cócegas e ainda estava meio tonta de tanto rodopiar, ele tinha-a ido apanhar do chão…
-Vais sujar o teu lindo vestido, a tua mãe zanga-se contigo Isabel, uma menina tão bonita não deve andar deitada no chão…
Deitara-a na cama, onde ele e a mãe dormiam à noite, em cima dos lençóis desarrumados e encardidos… Fizera-lhe festas no rosto, cheirou-lhe os cabelos e as sobrancelhas e encostou-a a ele… Ficou assim alguns minutos de olhos fechados e Isabel começou-se a rir,
-Estas a dormir Raul?
Então ele olhou-a nos olhos e começou a lamber-lhe a perna, joelho acima…
A voz que ouvira lá fora, quando caiu no chão, voltou a segredar-lhe:
-Foge Isabel, esconde-te debaixo da cama, ele vai fazer-te mal…
E Isabel, pela primeira vez sentiu-se nervosa e desconfortável, olhou Raul nos olhos e sentiu medo, começou a tentar empurra-lo e a pedir para ele parar…
Lembrou-se, de repente, das formigas e percebeu que ele as devia estar a esmagar e começou a gritar:
-Pára Raul, vais mata-las, vais mata-las, sai de cima de mim, vais mata-las….
Raul então parou… Todo ele tremia, lutava contra o desejo de amar Isabel, possuir toda aquela doçura, sim, ele amava-a, o amor às vezes é uma doença tenebrosa e sombria…
Os olhos de Raul marejaram-se de lágrimas e disse:
-Desaparece daqui Isabel.
E a voz, voltou a dizer:
-Faz o que ele diz, corre, foge daí Isabel, foge minha querida.
E Isabel, saltou da cama e desatou a correr… Raul ficara de joelhos em cima da cama agarrando os lençóis com força, chorando como uma criança.
E ela correu, atravessou a porta do quarto e chorava, assustada, sem saber bem porquê,
os olhos de Raul estavam diferentes, mas diferentes como? Porque chorava? Tantas perguntas, tanto medo e aquela voz dentro da cabeça dela que lhe gritava:
-Corre Isabel, corre, sai de casa…
E ela correu, porta fora, chorando, soluçando, sem saber bem porquê, de repente a visão da mãe a subir a rua, com o seu ar cansado, saco das compras numa mão e a mala castanha desbotada do uso, no ombro oposto…
-Mamã… (soluçou de lágrimas nos olhos rasgados pelo medo, medo do quê? Não sabia…)
A visão da mãe, aquele abraço faria tudo ficar melhor, correu direita ao abraço que precisava, ao colo onde pertencia, ao cheiro do conforto materno… A mãe viu-a a correr, o cansaço de um dia de trabalho a suar-lhe no corpo e agora vinha Isabel a correr toda suja, com o vestido que ela lhe tinha comprado com tanto sacrifício, porque não tinha cuidado com nada, porque não dava valor ao esforço q ela fazia todos os dias para a vestir, calçar e não deixar que a fome lhe tocasse?
Porque lhe tornava a vida tão difícil, porque olhava para ela com aqueles olhos amendoados tão cheios de sonhos inconcretizáveis? Encheu-se de uma raiva inflamada pelo cansaço, olhou-a com desprezo e rancor, tudo era mais difícil por causa dela, quando Isabel a alcançou, preparada para lhe saltar para o colo, recebeu-a com um valente estalo na cara… Isabel recebeu aquela chicotada no rosto e na alma, recuou três passos com o impacto da dor, confusa e deixou-se cair para trás, paralisada, pela espiral de sentimentos, balbuciou apenas:
-Mamã…

 

By Inês Dunas

One thought on ““Dançando sobre as Cinzas”, Capítulo II- “Gosto do sabor da tua pele…”(parte 1/2) de Inês Dunas

  1. Como é bom te ler, no sossego de um café fumegante, absorvido pela doce personagem de Isabel.
    Forte, instigante, mas sempre belo e criativo.
    Gostei!

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