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“Dançando sobre as Cinzas”, Capitulo I (parte 2/2) de Inês Dunas

 

 

 

Quando morria uma criança Isabel chegava a casa, despia-se completamente, fechava a luz do quarto e deitava-se debaixo da cama, sobre o tapete encolhida, em posição fetal, gostava de sentir que a colcha da cama formava paredes sólidas e impenetráveis que a protegiam do mundo lá fora, como uma tenda ao seu redor, ficava ali horas, a chorar até adormecer… Sabia que Madalena se sentava no chão encostada à cama a ouvi-la soluçar, às vezes Madalena cantava para a acalmar, outras apenas lhe dizia aquilo que ela tão bem sabia, que fora melhor assim…
Madalena sabia, que todas as noites, Isabel rezava a Deus para dar paz aquelas crianças, mas Deus não era propriamente célere ou pontual, o seu relógio não é igual ao nosso, tem ponteiros mais lentos e sem duvida mais pesados…
Os anjos também morriam, Isabel sabia isso muito bem, na verdade os anjos morriam um pouco todos os dias. Ser anjo era uma maldição terrível, Isabel descobrira o peso terrível que era carregar aquelas asas nas costas, quando fizera 7 anos, nesse dia alguém lhe chamou, meu doce e frágil anjinho e ela percebeu que ser anjo era um defeito e não uma virtude, por isso foi castigada tantas vezes, as asas de facto eram um fardo pesado de mais…
Madalena avisou-a, não deixes Isabel, não deixes… Mas ela não pode impedir, ele continuava a chamar-lhe de anjinho doce, enquanto a apertava nos braços e lhe dizia, fecha os olhos meu amor, já passa, os anjos nasceram para isto… Nesse momento Isabel fechou os olhos e imaginou que alguém a vestia de anjo, a voz de Madalena continuava a tentar fazê-la resistir, fugir, lutar, mas ela sabia que não valia a pena, os anjos nasceram para isto…
Tinha chegado a altura de envergar as asas da vergonha e da culpa, aquela era afinal a sua máscara de Carnaval, imaginou-se a desfilar lá fora entre serpentinas…
O seu corpo tinha crescido, imaginou-se adulta, no meio de toda aquela gente mascarada e assustadora…
A ligadura de gesso moldou-lhe a cara, copiou-lhe os traços, as linhas, os segredos e os caminhos…
A alma padeceu e fez-se esconderijo, entre a brancura estática, tornou-se uma estátua expressiva, como os santos em altares de talha dourada…
Fizeram-lhe umas asas, arrancaram as penas a patos e gansos mortos, como se as aves mortas voassem…
Vestiram-na de branco, mas a túnica trazia nódoas invisíveis que ela sentia e que a faziam sentir imunda e exposta…
Quem lhe dera a nudez, quem lhe dera o olhar de reprovação dos outros salpicado de inveja e desejo…
Quem lhe dera que o gesso mascarado de máscara de anjo, não se tivesse agarrado à sua cara e à sua alma para sempre….
No fim do terror, daquele corso improvisado, ele diz-lhe apenas uma frase, vai-te lavar estás suja e a tua mãe não gosta de te ver assim… Isabel levantou-se da sua cama e foi-se lavar, ardia por dentro e enquanto a agua a lavava percebeu que os anjos eram muito infelizes e que devia ter ouvido Madalena quando ela lhe disse, foge para baixo da cama, para ele não te ver, ele esta bêbado…
Agora, debaixo da cama, ela chorava a morte de Martim, um anjo doce que também tinha conhecido a crueldade de envergar asas, desde aquele dia tinha aprendido a procurar aquele refugio, só conseguia chorar ali, só se sentia segura ali, os monstros não se escondem debaixo da cama, não gostam de dormir no chão…
Ás vezes a cobardia e a fuga são as nossas maiores aliadas, nem sempre fugir é a pior solução, muitas vezes é a única solução que nos pode proteger de ficarmos perdidos e magoados para sempre, quando estava triste Isabel sentia em si o cheiro nauseabundo daquele dia, do momento em que descobriu que a fuga, é muitas vezes a única forma de mantermos nossa felicidade…
Enquanto soluçava, o tempo voava, nem teve consciência se esteve ali, minutos ou horas, acabou por adormecer como acontecia sempre. O sono de exaustão foi interrompido pelo som estridente do telefone, primeiro como se estivesse muito longe e as campainhas mais não fossem que peças decorativas de um pesadelo onde habitavam barulhos estranhos em fugas de chão movediço, Por fim, mais perto, as campainhas tornavam-se um som cada vez mais familiar e gritavam na sua mente uma única palavra: Acorda! Meio confusa e ainda embriagada do sono e do cansaço Isabel abriu os olhos, o seu corpo estava gelado, o seu telefone não parava de tocar, ainda hesitou uns momentos entre deixar tocar, sem dar importância, ou atender a chamada, acabou por ganhar coragem, arrastou-se para fora do seu esconderijo secreto e seguro e alcançou o telemóvel que estava na mesa de cabeceira, era Frederico…
-Onde estas borracho?
-Em casa…
-Então daqui a uma hora passo aí, vamos sair, não adianta dizeres que não, sei que te esta a fazer falta!
Às vezes recebemos a solução dos nossos problemas no colo, sem esperarmos acende-se a nossa luz ao fundo do túnel. Naquele momento Frederico era tudo o que Isabel precisava, o abraço meigo, a gargalhada roubada, talvez até mesmo a noite partilhada…
Sentou-se no chão durante escassos minutos, analisando se, de facto, lhe apetecia ter companhia, as pernas gelavam-lhe contra o chão frio, abertas em formato de relógio marcando as 4h35m. A maquilhagem descia em degradé negro e esborratado sob os olhos até às bochechas rosadas, respirou fundo, fechou os olhos e teve a certeza, precisava mesmo daquela fuga, precisava de um bom banho e de uma dose reforçada de Frederico Maia!

 

By Inês Dunas

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