1

“Crime…Disse ele” – 2º capitulo (Parte 4) de Mefistus

A pequena subida íngreme, motivava aos calcanhares atléticos, encorpados num perfeito cabedal dos seus sapatos Miguel Vieira, um acréscimo de força para avançar por entre o piso molhado.
A fachada do café Paris aproximava-se rápidamente e apertando um pouco mais a sua parka 100 por cento algodão, ele entrou no estabelecimento.
O seu estado de espírito era devastador, a roçar a perfeitamente irritado e sem contemplações dirigiu-se ao pequeno balcão.
O café Paris, situado em pleno Campo Pequeno, era o lugar habitual da cervejinha ou brandy após o horário de trabalho do inspector Ávila, da Polícia Judiciária.
Durante muitos anos, Julien vinha aqui regularmente, “meter” dois dedos de conversa com o proprietário e numa inevitável consequência da rotina, estabeleceu contactos com, na altura mero agente Ávila.
Após uma infeliz ocorrência com um seu familiar, Ávila viu Julien a resolver o assunto, à margem da lei, como se fosse um anjo vingador.
Desde então, sempre que o trabalho policial se esgota, sem conseguir avanços em certos casos, o inspector sugere o encaminhamento para Julien.
Como os honorários cobrados pelo ” serviço” , são regra geral, bastante altos, só os casos de maior dimensão chegavam ás mãos do Justiceiro, ou de alguem suficientemente desesperado por Justiça.
Para Julien, era sempre mais que um ” serviço”. Era uma obrigatoriedade e até agora Ávila havia sempre escondido os seus passos e apagado os seus vestígios. Mas a realidade é que o inspector já não estava a ficar novo e em breve iria se aposentar.
Por outro lado, Ávila mostrava-se bastante receoso. Um novo chefe chegara à esquadra e este era dos duros. Não acreditava em ninguém e movia ele próprio as investigações. Mais cedo ou mais tarde, começaria a mexer nos assuntos de Julien e apertaria o cerco. Teria de se aposentar em glória e não manchado por um escândalo destes.
Ávila estava igualmente consciente que nada deteria Julien, e sabia igualmente que regra geral, haveria um banho de sangue para limpar.
Mas desta vez, a ousadia de Julien de quebrar o protocolo e ligar-lhe assustava-o, pois mostrava que algo correra mal no “servicinho” e temia que ele perdesse as estribeiras e exagerá-se no castigo.
De charuto de má qualidade preso nos dentes, o homem de cabelos brancos, aguardou que a sua visita se sentasse perto de si, sem o olhar directamente.
Pacientemente Julien sentou-se com uma caneca de cerveja na mão e estudando um pouco o ambiente, atirou:
-Boa tarde! Folgo em saber que aceitou o meu convite!
-No seu telefonema disse que era agente comercial…
Era a deixa para ele ter cuidado. Para ser recatado que havia caras conhecidos no café:
-Efectivamente. De um produto sensacional. Próprio para o senhor!
-Ah sim?
-Uma situação de pragas…Foi o que me disse…baratas?
-Toupeiras no meu jardim!
Toupeiras no meu jardim, pensou o vingador. Que diabo, então ele estava com mirones na própria esquadra.
-Oh são as piores. Eu por exemplo tive um caso com ratos, daqueles que se vê em igrejas, não sei se está a ver?
-Sim, nos filmes!
-Isso. Pois eu fui com o o técnico lá e aquilo pareceu-me suspeito.
-Defina suspeito?
-Bom, realmente havia a presença de um rato, mas um rato esperto. Daqueles que apagam as pistas.
-Cuidadosos portanto?
-Exacto.
-E que fez você?
-Oh na verdade não fiz nada. O técnico colocou o produto e na ausência de pistas, optei por dar uma volta pelas redondezas….Para fumar um cigarro!
-Sim.
-Imagine o senhor que eu vi o rato a dirigir-se para outro local.
-Mas isso é estranho!
-Pior, imagine que o local nem constava na folha do processo de desratização da empresa.
-Um erro na elaboração do processo?
-Não me parece, já que o cliente frisou que o técnico já la tinha estado nesse local…mas no processo nada dizia.
-Então foi ao engano? A morada não era essa.
-Era. O rato era aquele sem sombra de dúvida. Mas o pequeno é inteligente.
De uma forma hábil Julien fazia referência ao padre, à sua atitude para com ele e ao novo local, que não constava do processo que Ávila lhe teria entregue.
-Como deve calcular, eu não sou grande conhecedor de ratos, mas diga-me…apanhou-o?
-Ainda não, mas com este novo produto e esta nova descoberta é uma questão de tempo.
-Então o seu produto é de boa qualidade?
-E com um preço imbatível.
-Trouxe algo para eu analisar?
-Com certeza.
Num sorriso rasgado, Julien voltou a entregar o processo ao inspector, numa outra capa, com um logótipo de um rato, com uma caveira.
-O meu numero está nesse processo. Sugiro que consulte. A demonstração no seu jardim é gratuita.
-Gratuita?
-Claro.
-Óptimo. Com esta chuva o cuidado é pouco.
Ávila apagou gentilmente a ponta do charuto, bebeu o resto do brandy num só gole, erguendo-se, dirigiu a mão para o seu visitante, despedindo-se num aperto formal:
-Terá noticias minhas.
-Excelente, senhor Ávila.
-Boa sorte para a captura do seu rato.
-O pobre coitado já ta morto e nem sabe.
A confirmação final que iria haver mesmo uma condenação assustou o idoso inspector, que encolhendo os ombros, anunciou:
-Por vezes, mata-se um rato, mas perde-se a ninhada que foje para outro local. Mas como lhe disse, nada entendo de ratos.
Julien consultou o relógio. Tinha que encontrar a miúda desaparecida e já não lhe restava muito tempo.
Aguardando uns minutos, levantou-se, pagou a cerveja e saiu.
Uns metros mais abaixo, na descida para o parque, ouviu o som de passos:
-Merda, só me faltava esta…Ser seguido!

By Mefistus

3 thoughts on ““Crime…Disse ele” – 2º capitulo (Parte 4) de Mefistus

  1. Uma vez mais deixaste-me boquiaberta!
    Que diálogo louco e ao mesmo tempo revelador do que realmente tinha acontecido.
    Que imaginação! Parece tirado do Pulp Fiction.
    Muito bom mesmo.
    Sem palavras!

  2. o diálogo é extraordinário…
    de um codigo…
    de uma inteligencia…
    espectacular!!!

    assustou me o facto da nova referencia ao boss da esquadra…
    isso pode trazer problemas para julien e eu nao quero lol
    e ainda por cima..seguido???
    aiaiai
    o que ai virá…?

    a adorar o crime disse…ele!
    🙂

    • Um capitulo perfeito, irreverente e diferente.
      Não seguia muito este conto, dado que gosto mais do romance deste mesmo autor,mas este diálogo (Que só faz senso a quem tive a acompanhar os capitulos interiores), é o melhor que já podia ter lido.
      Acabei a sorrir, deliciada com a agilidade mental da personagem.
      Parabens, este tamem vou seguir com mais atenção.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s