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“A Vã Glória de te Amar” – 1º Capitulo (Parte 3) de Mefistus

(fonte:acores.net)

Com o nascer dos primeiros raios de Luz, a jovem despertou do sono que a mantivera cativa e sem perder tempo, sentou-se perto da vigia, na alcatifa ainda húmida da chuva que caíra nessa noite anterior e serenamente, retomou a leitura do caderno.

No curto sono que tivera, sonhara em traços gerais com a figura de Vega deitado, entubado, de cabelo branco e ar de rendido. Frequentemente não se recordava dos seus sonhos, apenas dos seus pesadelos, aqueles que ocorriam com ela acordada, de cada vez que o marido pensava que ela lhe ocultava alguma paixão secreta por outrém e descarregava, com a ajuda de duas garrafas de vinho, a raiva nela.
Acreditava firmemente que na realidade não dormira, apenas sonhara, talvez acordada, um sonho bom, diferente.Não percebia como se sentia enfeitiçada pela escrita de Vega, mas ela tinha alguma coisa na sua forma que a cativava.
Tambem ela, como aquele ser que escrevera, vivia um momento de intensa mudança e escolhera igualmente o Porto para iniciar nova vida. Talvez fosse isso, ou a vontade de se esquecer dela.
Eram sete e meia da manhã e a chuva cessara e a fome e sede, foram substituidas pela devoção de ler, mais e mais. Num cuidado meticuloso no manuseamento do caderno, abriu e recomeçou a leitura:
” Como tudo é diferente nesta pequena selva de betão. Um amigo disse-me antes de partir para ter cuidado com a gatunagem, mas que Lisboa, por ser a Capital, era bem mais perigosa.
Não sei a experiência que o meu amigo tinha desta cidade, que me acolhe no seu regaço, como se nela tivesse vivido toda a minha existência, mas asseguro-vos que a única coisa que eu não senti, na chegada, foi medo.
Para ser sincero, não tinha grandes planos traçados sobre o que fazer e onde ficar. Calculei que por ser uma cidade grande, que haveria facilmente de encontrar um sítio ” fino”, onde alojar estes meus ossos ávidos de novas aventuras.
Durante um bom par de horas, perdi-me pelas ruas e ruelas desta cidade, examinando com olhos de turista, todos os edifícios, as gentes, os jardins. Não me julguem mal, não se tratou de simples vadiagem, mas no dia seguinte iria me apresentar no novo trabalho e precisava de conhecer um pouco a cidade.
Sem saber bem como, eu que saíra em Campanhã, subia agora os Clérigos ( como é majestosa a subida), atravessei um Hospital e deliciado penetrei nos jardins do Palácio de Cristal.
No alto da minha euforia, pensei na altura, que todos nós, nobres mortais, possuiamos um jardim como o do Palácio, no lugar do nosso coração. Uma palpitante batida colorida, regada por seivas de clorofila libertadora.
Quanto mais conhecia a cidade, mais achava que tudo tinha a ver comigo. para lá da primeira imagem que fica, a de uma cidade cinzenta e fria, no seu âmago e à sua maneira, esta cidade é acolhedora, pensadora e com vida. Como eu o era naquela altura!
O corpo cansava-me e as pernas pesavam-me, mas eu não conseguia deixar de absorver a essência da Invicta aura que a cidade ostentava.
Acabei por decidir ficar por ali mesmo, num quarto alugado num segundo piso. Não era algo de majestoso, mas agradava-me a proximidade do Hospital ( será que eu já cuidava que iria adoecer?), e dos formosos jardins, onde poderia passear ao fim da tarde.
Foi aliás nessa mesma tarde, depois de alugado o quarto, e ter gasto os meus cem escudos que restavam da viagem numa sandes mal amanhada que a vi pela primeira vez. A dona Glória. A mulher mais linda á face da terra e que visão, meus senhores!
Eu era jovem e os amores á primeira vista, eram a minha grande fraqueza. Achava que me podia apiaxonar só por um olhar, um sorriso….Como era um ingénuo nesse tempo!
Com um exemplar diário do Comércio do porto, aberto eu estava absorvido na leitura de aspectos políticos, quando ela se sentou ao meu lado. Um doce aroma primaveril, invadiu o espaço e arquejou a pona dos meus bigodes, que como radares, se viraram na sua direcção, regalando-me a visão de espanto.
Glória, Musa e encanto da Invicta cidade, sorria para mim, um estranho acabado de chegar, como um anjo sorri perante ma boa acção. Um sorriso transbordante de harmonia e paz. Um sorriso de Gioconda, num pincel de um génio.
Devo ter ficado inerte diante da explosão de vida e charme que presenciava, que sem conseguir proferir qualquer frase, fui recebido com um boa tarde rasgado . Não era apenas um boa tarde. Era um bálsamo, um convite, um salvo-conduto, a dizer-me “vai, avança. Diz algo”. Que poderia eu dizer? Como poderia ocultar a minha pronuncia de Vila Real? Seria eu suficientemente atraente, para que tal deuse me concedesse o previlégio de uma conversa em banco de jardim?
Sorri. Devo ter exibido um dos piores sorrisos da História universal. Um sorriso de perdido, igual a Carlos Magno. Um sorriso de anúncio de uma vida triste e futuro incerto, mas mesmo assim um sorriso:
-O senhor queira desculpar a minha ousadia, mas estou sem cigarros. Por acaso não fuma?
-Aaa…Fumar, não…penso que não. – Retorqui atabalhoadamente.
-Não sabe se fuma?
O coração batia-me descontroladamente como uma locomotiva no fim de uma descida, sem freios. Gotas de suor, surgiam como o orvalho da manhã, na minha testa rectangular e algo enrugada:
-Sim. Não fumo, Lamento.
-Quem lamenta sou eu. O que não dava por um cigarro.
Era a deixa teatral no palco deste Eden no coração do Porto. Agora se definiria o momento:
-Pois não seja por isso. Eu posso lhe oferecer um maço de cigarros.
Ela riu de novo, iluminando o espaço com o brilho do seu sorriso:
-Não será necessário, mas obrigado pela gentileza.
-Oh, mas não é incómodo nenhum.
-Obrigada, mas já estou de saída.
E assim ela foi , num caminhar seguro e certo, de tacões rasos, para tão longe quanto os meus olhos a pudessem acompanhar.
Será que a iria ver de novo ? Tinha de a ver.
Mal eu sabia que aquela criatura iria me manter cativo numa espiral de sentimentos…”
Ela fechou o caderno, resistindo ao impulso de o ler de pronto. Completamente, sem deixar escapar a mais pequena marca ou detalhe.
Mas por agora, tinha compras a fazer e sítios a ver. Iria seguir o caminho que ele mencionara e iria sentar-se no palácio de Cristal, esperando sentir a seu lado, a companhia invisível do criador deste caderno.
Como era bom voltar a ter esperança e divagar sozinha pelo desconhecido.

By Mefistus

6 thoughts on ““A Vã Glória de te Amar” – 1º Capitulo (Parte 3) de Mefistus

  1. Dei por mim a sonhar uma vez mais, a pensar como é possivel extrair de um pensamento avulso, coisas e expressões invulgares. daquelas que nos apetece memorizar, como:
    No alto da minha euforia, pensei na altura, que todos nós, nobres mortais, possuiamos um jardim como o do Palácio, no lugar do nosso coração.
    E depois a sucessão de calafrios e ansias, o medo de não a voltar a ver.
    Numa palavra? Brutal!

  2. Num vinco muito próprio, muito teu, vais traçando duas vidas, em paralelo sendo que o unico ponto em que se unem é o próprio diário.
    Já venho regularmente ler, mas apenas porque sou curioso e anseio pelo desfecho.

  3. Potente a opção dela em querer seguir os passos que lera. Um conto ao nivel do teu talento.
    Notei contudo uns toques de eskizofrenico na personagem, o que é natural,ou então sou eu que tou já fã da saga. Lol.

    Um abraço

  4. Não conheço o Porto, mas fiquei rendida a esse Eden.
    Gostei imenso do diálogo e realmente redescubro o prazer de leitura desse género romance.
    Deliciosa a menção de locomotiva.Acho que o que mais me atrai é a ingenuidade e inocencia num “perfeito cavalheiro” que até tabaco quer comprar.Muito belo.

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