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“Crime disse ele…”(Capitulo 2 . Parte 1) de Mefistus

Perto do campo pequeno, num dos muitos restaurantes que por ali abundam, Julien optou pelo italiano. Sabia-lhe bem uma lasanha e ademais estava em trabalho pelo que não podia ser esquisito.
Preocupava-o o telefonema que recebera. O seu número não andava propriamente distribuído em listas telefónicas e em Flyers de publicidade, mas a voz feminina pareceu-lhe demasiado sincera.
Era ponto assente que ele não aceitava um qualquer trabalho, ou como ele chamava, um ajuste necessário. Para convocarem os seus serviços tinham que ter uma injustiça.
Não matava por matar, não se arriscava por capricho.
Ciao Itália era o seu restaurante favorito há anos e mantinha uma amizade segura e fidedigna com os donos do estabelecimento.
Julien sentou-se na mesa do costume. Ele era pouco dado a mudanças repentinas e na sua profissão tinha de as evitar. O pior que pode acontecer a um assassino justiceiro é ser apanhado desprevenido.
Desabotoando pacientemente o seu fato Armani, consultou o mostrador negro do Tissot. Tinha tempo. Outra das suas vantagens era a pontualidade e em casos de desassossego, os vinte minutos antes que sempre dava para ” cheirar” o ambiente.
Pediu um vinho tinto da casa, conhecedor que era do bom gosto do gerente e bamboleando o liquido vermelho no pequeno copo, ia sorvendo goles pequenos saboreando o paladar aveludado com notas de fruta.
Mentalmente porem estava em franca ebulição, recordava-se do telefonema:
” Aconselharam-me o seu nome…Sei que sabe ser discreto…Creio que vai agradar o que lhe vou propor!”.
Nem uma hesitação, nem uma nota de arrependimento em ter ligado. E o timbre de voz? Decidido.
Como sempre fazia, Julien dava indicações erradas acerca do seu aspecto, de forma a poder estudar a pretensa cliente. Caso visualmente, algo nela soasse a errado, ele assumiria o seu ar Belga e procederia como um arquitecto estrangeiro em Portugal.
Á hora marcada, ela surgiu na curta escadaria de madeira, solicitamente conduzida por Inácio, o empregado mais antigo da casa, para uma mesa perto dele.
Mentalmente Julien começou a dar uso ao seu placard mental…Pontualidade (ok)…não olhou assustada em redor, antes aguardou estudando pelo canto do olho quem se encontrava na sala ( ok), …mostrava indiferença aos olhares que a rodeavam ( ok).
Sorvendo mais um gole de vinho, Julien sorriu e tentou em segredo detectar o nome da fragrância que ela usava, sem se dar ao trabalho de se levantar.
Viu com um sorriso que ela optou por um rosé fresco, aguardando que o empregado lhe desse a provar e aceitando o vinho, num sorriso aberto.
Quem a visse supunha que ela era uma mulher feliz aguardando o parceiro de um Dating.
Obviamente Julien reservou mesa em nome de Julien Betencourt, (Um dos muitos nomes usados por si, em BI falso), tomando para si uma mesa incógnita.
Vinte minutos passaram e observou deliciado, os olhos dela a consultarem o seu Nokia preto, indecisa entre ligar ou não. Ele aguardava apenas que o vinho rosé fizesse efeito.
Reparando no tac, tac que a ponta do seu sapato aberto de verniz, fazia no soalho, ele tomou a iniciativa. Era a hora aguardada.
Com um ar impávido e sereno, ergueu-se, aproximou-se das costas da jovem e puxando uma cadeira, sentou-se tranquilamente:
-Boa noite, posso me sentar?
A rapariga estremeceu. Pelo telefone a voz se descreveu como um sujeito forte de barba grossa e via apenas um jovem atlético, bem-parecido, elegantemente vestido.
-Creio que não. Espero alguém!
-Ele não se importa, seguramente. – Retorquiu Lucien puxando a cadeira.
-Por favor, peço-lhe que não se sente. Realmente não pretendo companhia, nem desejo lhe falar!
-Estranho. Não foi isso que me disse ao telefone.
Ela permaneceu estática apreensiva, sem saber o que dizer:
-Mas…Sr. Betencourt?
-Julien Bettencourt, para ser mais exacto.
Perante a perplexidade dela, abriu a cigarreira de prata, retirtando um Marlboro e acendeu, numa curta passa.
-Desculpe, não corresponde ao…
-Já provou a lasanha da casa? É óptima.
-Não, não provei.
Julien ergueu um braço e de pronto Inácio, gingando nos sapatos de sola de borracha, recolheu o pedido e desapareceu por trás do balcão de madeira:
-Mas então posso lhe contar a proposta?
-Com o café. Não é todos os dias que janto em sublime companhia.
Julien saboreava o gozo de a ver perdida e completamente colhida de surpresa:
-Já agora, tenho uma dúvida! – Acrescentou o sujeito, tragando em curtas névoas, passas do seu cigarro.
-Duvida?
-O perfume que usa…è Chanel nº 5 ou Kenzo?
Num sorriso sincero, ela rejeitando olhar-lhe nos olhos confidenciou:
-Amour da Kenzo. Está correcto. No entanto costumo usar Laguna, Salvador Dali.
-Gosto dos seus quadros. Apesar de só ter dinheiro para falsificações baratas.
Incrível, pensou ela, como alguém tão atraente pode ser um Serial Killer por contrato. Estava demasiada concentrada nele, para pensar no receio de contar o seu plano.
Quando a última gota do café, escorreu na sua garganta, a jovem ganhou coragem:
-Sr. Bettencourt, o De Ávila deu-me o seu contacto. Disse-me que era a pessoa certa para me ajudar!
-Estou certo que o De Ávila estava correcto. Que posso fazer por si?
-Aqui á cerca de três anos uma menina de dezasseis anos, desapareceu subitamente de casa, a meio da noite. Esteve desaparecida durante 6 meses. A polícia nunca se importou muito com o caso, pois não havia provas de que alguém forçara a janela do quarto, ou a fechadura da porta.
-Entendo, mas não trato de pessoas desaparecidas.
-Eu sei. A questão é que a jovem, ou o que restava dela, foi encontrada seis meses depois, presumivelmente assassinada.
-Que provas tem disso? De que foi assassinada?
Olhando de soslaio para a sala e certificando-se que ninguém em particular a observava, a jovem abriu a sua mala Cavalinho e retirou um pequeno Dossier, que entregou a Julien:
-Consta do processo da PJ!
-Que deveria estar com a PJ.
-O De Ávila, achou que ficava melhor comigo.
-Suspeitos?
-Um padre.
-Um Padre?
-Sim.
Julien assobiou baixinho e pousou o dossier, acendendo nervosamente outro cigarro.
-Eu sei o que parece. Não o estou a incriminar, a questão é que outra jovem sumiu do mesmo modo….E esta é minha irmã!
Ele pediu novo café, e tentando absorver a informação, confidenciou:
-Bem, eu tenho as minhas convicções religiosas, estudarei o processo e se for como diz…
-Estou certa que será.
-Mas sabe, os meus honorários são pesados.
Ela sorriu de leve, e pegando numa caneta da mala, escreveu uns números num pedaço de papel e entregou-lhe:
-Foi isto que me disseram.
-É isso!
-Muito bem, só não me disseram como pagar.
Julien ergueu-se, pegou no dossier e a sorrir, sentenciou:
-Entrarei em contacto. Receberá mais instruções nessa altura.
-Certo.
Calmamente Julien abordou o dono do restaurante, falaram por um bocado sob o olhar atento dela, até que Inácio a abordou com duas perguntas. Quando ela voltou a olhar para o balcão ele desaparecera.

by Mefistus

2 thoughts on ““Crime disse ele…”(Capitulo 2 . Parte 1) de Mefistus

  1. Um conto extraordinário…
    mas nao é de surpreender, pois Mefistus é extraordinário na escrita!!!🙂

    parabens á responsavel pelo blog…bela ideia😉

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